SEIS KOAN ZEN, E OS SEUS ECOS NO LABIRINTO

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Se o bater de palmas de duas mãos é assim, qual é o bater de uma só mão.

Em que é que o olhar e o olhado são diferentes, se a mente se converte naquilo que olha?

Sê-lo-ão o caminhante e o caminho? Não se nos ensina que não podes percorrer o caminho até que te tenhas convertido no caminho em si mesmo?

O que julga e é julgado? O que golpeia e é golpeado? E a eterna lei da ação e reação a que Newton deu este nome?

O que ajuda a natureza não se ajuda a si mesmo e o que faz florescer a sua natureza não embeleça o mundo?

A ação faz nascer a reação, mas quando ambos são o mesmo como a canoa que avança no rio movida pela corrente?

Sorriem os Deuses e ilumina-se a alma humana, ou é a luz da alma a que faz sorrir o céu?

A semente morre quando o broto procura a luz no alto, mas nada o empurra. Nada no universo é coisa, nada deixa de ser. Expressa-se ou não, dilata-se na existência ou contrai-se dela.

A palma da mão sozinha não bate, nada interrompe o silêncio e o ar dança em torno e mesmo que nada rompa, serpenteia.

Diz-me qual era a tua face antes que nascessem os teus pais

Licença Creative Commons CC0

A minha face verdadeira é a que olho e não vejo no espelho da vida.

Sim, vejo a que o amor dos meus pais forjou. E quem sabe quando nasceram, juntas ambas sorriram.

A tua face verdadeira é a que sorri no Sol e a que se faz ouvir no vento. A que olha na amada, a que reclama no mendigo, a que na dor e na desgraça a ti se aproxima, a que deixas de ver e sentir no prazer, com o seu calor escaldante.

A que na morte abraças pois a ela regressas, a que na vida recordas, mas que em ti trabalha.

Parece que foge mas nunca o faz, como nunca foge a luz da sombra.

Nunca me buscarias se não me tivesses encontrado, disse Cristo a Santo Agostinho, e se encontras Buda ou os Patriarcas, mata-os, disse um sábio zen.

Quando uma árvore cai num bosque faz barulho se não há ninguém para a escutar?

Árvore caída, Floresta Pitmedden. Wikimedia Commons.

As almas humanas brilham mas de vez em quando há que arder, querem brilhar nas pupilas do mundo! Assim se opacam, por medo que outros brilhem igual ou mais.

Quem vê o seu corpo no espelho não pode ver o infinito que este reflete, e menos ainda o mistério da luz, na sua vida e geometria, e nunca há de adentrar-se na causa e obscuridade que a fez nascer.

E quem sabe uma estrela hoje morreu e, no entanto, tu estarás morto quando chegue aqui o grito com que inundou o espaço. E aqui, que aqui, salvo a si mesmo, não há um único espaço fixo para nada neste mundo?

Tal como os pais cuidam dos seus filos, deverias ter em conta todo o universo (Dogen)

Creative Commons CC0. Pxhere.

Cuidar dos filhos é um imperativo, um mandato da natureza para os seus pais. Cuidar do filho, ou pelo menos, simplesmente que o filho esteja cuidado, como na terrível resolução do Buda que o levou à selva, querendo socorrer a humanidade inteira.

E cuidá-los é primeiro estar atentos.

Quando a mente com que olhas o mundo não seja o teu mundo, mas o mundo, nos diz Dogen, o mundo estará baixo o teu cuidado, como os filhos dos pais.

E sem a atenção e a sua chama como poderá chegar a tua luz ao mundo inteiro? Como poderias sem ela cuidar dos teus filhos? Como poderias cuidar de ti mesmo? E porque emudece, ante a primeira sombra da tua mente, se ela é a única que poderia afastá-las?

E porque fazes do mendigo ou do ladrão rei de ti mesmo, se o reino de Deus, que como seu filho, te há sido outorgado, espera o teu olhar e ação atenta e bondosa?

Não medites, não golpeies o carro, senão o boi se queres que este avance

Creative Commons CC0. Pxhere.

Todos os dias e à mesma hora, como um rito sem sentido golpeias e até danificas o carro e o tempo vai mais rápido que o carro pois o boi espera e morre de fome.

Se tu não vais, onde vais tu? Se não há perguntas como encontrarás respostas. Se não morres como queres nascer e viver. Como queres voltar só com a sombra da asa. Se olhas através da fechadura como farás girar a chave nela. Se te olhas no espelho como verás o próprio espelho e se só te vês nele como saudarás quem está ao teu lado.

Dois monges discutiram sobre uma bandeira. Um disse que a bandeira se estava a mover. O outro disse que é o vento que a estava a mover. Perguntaram ao Mestre e este disse que nem o vento nem a bandeira, que é a mente quem se move.

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Move-se pelo vento que não vês e que imaginas, à bandeira sim. E da bandeira ao vento.

Toda a causa gera um efeito. Todo o efeito indica a sua causa, mas só a causa que ela mesma é efeito não necessita de uma mente que pergunte e espere resposta.

Que importa à bandeira o vento, até quem sabe só nele encontra a sua plenitude. Que importa ao vento à bandeira, se até quem sabe só nela sente que vive e se move. Mas tu, sem vento, não vês como a bandeira se estende e agita, e sem bandeira nada sabes do vento. E que te importa a soma de ambas. Sim, já sei, te importa a soma das letras porque estas originam palavras que têm sentido. Mas como podes somá-las se sabemos desde crianças que não podemos somar pêras e maçãs? E como podes, sem somá-las, encontrá-las quando “a humidade não é um atributo da água senão a sua própria presença”?

Jose Carlos Fernández

Almada, 15 de maio del 2022

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