REFLEXÃO SOBRE OS VARNAS (CASTAS) NA ÍNDIA

Pandava

“Não há nada de nobre em ser-se superior aos outros homens,

porque a verdadeira nobreza é ser-se superior ao seu antigo eu”

Proverbio antigo da Índia

«A palavra “casta” não é um termo indiano, mas uma palavra derivada do português “casta”, que significa “espécie”, “raça” ou “pura”, “não misturada”. Esta tem sido utilizada pelos ocidentais desde a chegada dos colonos portugueses à Índia, no século XVI. Os hindus, por outro lado, usam as palavras varna e jati, que cobrem duas realidades diferentes.

Varna, que significa “cor” ou “qualidade”, refere-se a um sistema hierárquico herdado da sociedade Védica (1500 a 600 a.C.). Existem quatro varnas, hierarquicamente ordenados de acordo com um princípio de pureza ritual, onde cada um corresponde a uma parte do Ser Primordial, PURUSHA. Os brâmanes, sábios, sacerdotes e professores, vêm da boca de Purusha e são os mais “puros”; os kshatriyas, os governantes e guerreiros, vêm dos seus braços; a superioridade dos dois primeiros varnas é justificada pela sua localização acima do umbigo de Purusha. Os vaishyas, os agricultores e comerciantes, das suas coxas. O quarto varnas vêm dos pés do Ser Primordial: são os shudras, os trabalhadores e os operários agrícolas, que servem as três classes superiores. Finalmente, diz-se que os “párias”, os intocáveis, hoje mais conhecidos como dalits (“oprimidos”), nascem da terra.

Brahma, o deus da Criação, de quatro caras. Wikipedia Creative Commons.

jati (“nascimento”), é um grupo socioprofissional ao qual cada hindu pertence, geralmente por causa da profissão dos seus pais. Haveria cerca de 4.600 jatis na Índia, cujos nomes variam de acordo com as regiões. Estes estruturam as relações sociais quotidianas, com base em princípios de endogamia e hierarquia.»[1]

OS QUATRO VARNAS

Cada ser humano é nobre quando está no seu justo lugar, mas o dever de um não é o dever do outro”

 Swami Vivekananda

A função social e os deveres (Svadharma) associados a cada um dos quatro varnas apresentam-se divididos em correspondência com a natureza (svabhava) específica de cada ser humano. Assim, os deveres de cada varna são aquilo que cada ser humano deve restituir ao Dharma (a Lei Cósmica), para garantir e contribuir para o equilíbrio e harmonia universais. Em sânscrito, Dharma deriva da raiz “Dham”, que significa “manter” ou “apoiar”.

No hinduísmo, segundo as Leis de Manu (dos Pais da humanidade), o Dharma é uma das quatro partes do Purushartha, sendo elas: Artha (valores económicos), Kama (prazer), Dharma (retidão) e Moksha (libertação). O Dharma, ou Lei cósmica, expressa o propósito da vida bem como os comportamentos que estão de acordo com o Rta, a ordem, o Logos que permite a expressão da vida em todos os seus planos de manifestação. Segundo a teoria da reencarnação, o Dharma reflete-se na ordem social da comunidade humana, através de uma hierarquia natural sustentada pela conduta moral, resultado da evolução do ego e da sua herança kármica, sendo o karma a soma de resultados positivos ou negativos de ações anteriores que condicionam o nascimento em determinado Varna. Assim, cada Varna é a atualização e continuidade, no presente, de um estado evolutivo da alma humana, alcançado durante uma sucessão de vidas passadas. É provável que, na sua origem, esta ordem natural dos Varnas não tivesse um pressuposto hereditário, mas que correspondesse antes ao ajustamento natural da Lei da evolução da consciência humana em contacto com o mundo material.

“O karma é a afirmação eterna da liberdade humana… Os nossos pensamentos, palavras e ações são as cordas do fio que lançamos à nossa volta.”

 Swami Vivekananda

A PIRÂMIDE – MODELO DA EVOLUÇÃO 

Pirâmide de sistema de castas na Índia. Wikimedia Commons

O papel desempenhado pelos Bramanes é o de manter a ligação entre o Divino e o humano. A sua função é de ordem espiritual e intelectual, e deve servir a Verdade. Associam-lhe as virtudesde serenidade, autocontrole, ascetismo, pureza, paciência, conhecimento, discernimento e fé.

O papel desempenhado pelos Kshatriyas é o de governar, desempenhando um papel judicial e militar, e deve possuir as virtudes do valor, glória, constância, habilidade, coragem, fortaleza e lealdade.

O papel desempenhado pelos Vaishyas está associado à economia, indústria, agricultura, comércio e finanças. Deve possuir as virtudes da temperança, honestidade, equanimidade e criatividade.

A função do shudra é a de desempenhar os trabalhos necessários para assegurar a sustentabilidade material da coletividade, devendo possuir as virtudes de dedicação, obediência, esforço e serviço.

As castas da Índia exprimem de forma muito sintética os quatro graus de aspiração da alma humana encarnada num corpo de matéria, quatro estados de consciência, quatro patamares de necessidades existenciais alicerçados em quatro planos de realizações da pirâmide evolutiva humana. Da base até ao topo, encontramos quatro tipos de necessidades e de aspirações, também elas associadas aos quatro elementos: Terra (físico); Água (energia); Ar (emocional); Fogo (mental).

O homem que identifica a sua consciência no elemento Terra (Shudras), representa a primeira etapa, a base da pirâmide, e manifesta-se através da necessidade de se fixar, de nutrir as necessidades básicas, acomodar-se, encontrar bem-estar e saciedade do eu na segurança do mundo material. Nele predomina o instinto sobre a razão, de natureza passiva e dócil como a argila (ilus) húmida que serve de base à construção das formas.  A sua falta de vontade própria, autodisciplina e discernimento tornam-no vulnerável à ilusão e à sedução das forças exteriores que o utilizam como matéria-prima para sustentar o seu poder.

A natureza dos Shudras, que busca o bem-estar, necessita de ser trabalhada, educada e orientada para não se corromper e poder servir o bem comum.

O homem que atingiu a consciência do elemento Água (Vaishyas), está relacionado com o princípio de vitalidade, diferenciação e expansão. Como o sangue que anima e circula pelo corpo, a consciência do Vaishya deseja expandir-se e diferenciar-se através da criação de uma identidade, de um nome, de uma forma que sobressai do anonimato, buscando o brilho pessoal, o prestígio, e que é movido pela ambição de riquezas. Aqui, a consciência expande-se e goza da plena liberdade de conquista e prestígio. A natureza Vaishya necessita de normas morais que controlem a sua tendência egoísta de benefícios e privilégios para não prejudicar o equilíbrio da justa restituição dos bens e favorecer meios de existência justos para a coletividade.

O homem que atingiu a consciência do elemento Ar (Kshatriyas), esta relacionado com a compreensão e emancipação progressiva dos condicionalismos produzidos pela lei de restituição karmica, base da sustentação do equilíbrio dos mundos manifestados. O homem de natureza Kshatriya aprende a controlar as paixões egoístas da sua natureza inferior através do poder da vontade e da disciplina mental. O seu progressivo desinteresse e despreendimento pelas conquistas de ordem material permitem-lhe desenvolver uma consciência que aspira a elevar-se em busca de Ideais humanitários e transcendentais. Os conflitos, entre as necessidades da alma que se quer libertar e as necessidades do corpo que a limita e a desvia da sua autodisciplina, obrigam-no a ser sentinela dos seus próprios inimigos interiores. Aqui, a consciência iluminada pelos mais nobres ideais de justiça, amor e serviço mostram-se disponíveis para proteger e defender os interesses da comunidade.

O quarto e último varna, o dos Bramanes, representa a consciência que se eleva e que está associada ao elemento Fogo. Aqui, a consciência está livre de identificação e consumiu as sombras da superatividade, pode então irradiar como o sol em todas as direções. Através da dissolução das resistências passionais do eu pessoal, da purificação do egoísmo que exclui o outro, a mente esclarecida pode dedicar-se a instruir e orientar a comunidade, a respeitar e a viver a essência do Dharma. Aqui, a consciência busca o seu Eu verdadeiro, o Ser eterno que perdura em cada expressão da Vida Uma.

Em concordância com a filosofia do yoga, o universo pode ser apreendido através de duas dimensões: a matéria, ou substância primordial, Prakriti (Maya, matriz ou Ilusão) e Purusha, a Essência, o Espírito (Realidade). De acordo com esta filosofia, tudo o que é modificável, que não é infinito, faz parte da natureza transitória do mundo material. Purusha, por outro lado, é a única realidade, é o único princípio imutável do universo: o SER, o UNO. O mundo ilusório dos fenómenos, manifesta-se através de três qualidade ou os três gunas. Estas três qualidades estão presentes em toda a energia da vida em diferentes graus e combinação. Os três Gunas são: Sattva (equilíbrio, pureza), Rajas (atividade) e Tamas (passividade, ignorância, escuridão). Apenas Purusha, o Espírito, é eterno, enquanto Prakriti, a matéria, está sujeita a sofrer transformações constantes, produzindo uma variedade de fenómenos temporais e ilusórios que resultam da influência dos Gunas. A dificuldade do ser humano reside na possibilidade de distinguir entre o real e o irreal. Esse é o objetivo final do Yoga: ver além da ilusão, ver a realidade.

Foto de General Press em Flickr. Licença Creative Commons Attribution 2.0. Generic.

A Bhagavadgita, trecho épico extraído do Mahabharata, fala-nos da história do mundo, da sua vasta complexidade, da trama de desejos, pensamentos e ações, onde Krishna é o guia espiritual do jovem discípulo Kshatriya, Arjuna. Krishna representa Ishvara, o Logos, o Coração Luminoso do mundo. Como avatar ou mensageiro divino, ele é também o reflexo do nosso Eu superior, essência do ser imortal que está omnipresente em cada ser humano. A luz da verdade resplandece no Universo, mas o ser humano está cego e surdo, pois é difícil ver o caminho no meio do ruido, da agitação e do medo. A dúvida é o inimigo fatal da ação, por isso no início da Bhagavadgita, Arjuna representa a mente dominada por tamas, a ignorância e os falsos argumentos que ainda não lhe permitem discernir o propósito da ação reta, querendo fugir da ação, pois a dúvida paralisa a alma. A Gita é um magnifico tratado de Karmayoga, ou seja, o Yoga que ensina a arte de manejar os Gunas e alcançar Sattva, o perfeito equilíbrio entre o pensamento e a ação. Arjuna, modelo ideal da natureza Kshatriya, representa aquele que escuta a voz do seu Mestre interior (Krishna) e apreende  a disciplinar-se,  a dominar as suas paixões, medos e dúvidas, devendo agir por dever em respeito e obediência à Justiça, com um amor  livre de qualquer interesse egoísta e guiado pelo reto discernimento. Enquanto Sattva representa a justa harmonização dos Gunas, o equilíbrio perfeito, Rajas e Tamas possuem os aspetos superior e inferior. Rajas, no seu movimento superior (sattvico), representa o esforço justo, a coragem e a ação libertadora, no seu movimento inferior represente a avidez a conquista movida por desejos egoístas. Tamas no seu movimento superior (sattvico) representa o despreendimento dos frutos da ação e a serenidade interior. No seu aspeto inferior representa a passividade, a ignorância que gera medo e a fuga do compromisso.

ISKCON desire tree em Flickr. Licença Creative Commons Attribution NonCommercial 2.0 Generic

O CULTO DO DIVINO E OS TRÊS GUNAS – comentários de Shri Aurobindo à Bhagavadgita

“O culto ao divino dos “duas vez nascidos”, exige a retidão moral, a pureza, a ausência de violência para com os outros – tal é o ascetismo do corpo. Discurso que não causa perturbação aos outros, veracidade, benevolência e beneficência, o estudo da Escritura – esta é a ascese do discurso. – Alegria clara e calma da mente, doçura, silêncio, autocontrolo, purificação completa do temperamento – esta é a ascese da mente. Este triplo ascetismo, praticado numa fé iluminada, sem desejo pelo seu fruto, que se tornou harmonioso, é chamado sattvico.

O ascetismo que é empreendido para obter honra e adoração dos homens, por desejo de glória e grandeza externas, e por ostentação, é considerado rajásico, instável e efémero. A ascese praticada numa mente enevoada e abusada, impondo esforço e sofrimento a si próprio, ou concentrando a sua energia no desejo de ferir os outros, é chamada tamásica.

Dar de uma forma sattvica é dar por amor de dar e fazer o bem sem nada esperar em troca; é dar nas condições certas de tempo e lugar e ao justo beneficiário (aquele que é digno, ou a quem o presente pode realmente ajudar).

A dádiva Rajásica é dar com relutância, ou com violência, ou com um propósito pessoal e egoísta, ou na esperança de alguma recompensa.

A oferta tamasica é oferecida sem ter em conta as condições certas de tempo, lugar e objeto; é oferecida sem ter em conta os sentimentos do recetor, que a despreza mesmo quando a aceita (17.14-22)”

“Todas as almas em potência são divinas. O nosso objetivo é manifestar o Divino que está dentro de nós, dominando a natureza exterior e interior, (…) Doutrina, dogmas, ritos, livros, templos e formas são apenas detalhes secundários, eliminando o ego de um lado, Deus preencherá o outro lado”

Swâmi Vivekânanda

Num sistema piramidal ideal, o Dharma de cada Varna deve ser o reflexo na terra do Dharma Celeste, sendo a moral, a justa expressão na conduta humana desta Ética Universal.

Para os SHudras, a Lei moral serve para moderar os seus instintos, o seu objetivo é o bem-estar, lutando pela existência e vivendo na ignorância.

Para os Vaishyas, a Lei moral serve para moderar as suas ambições, lutando pela abundância e riqueza, vivendo na ilusão.

Para o Kshatriya, a Lei moral serve para moderar a sua ânsia de honra e glória, lutando pela justiça e vivendo do combate interior.

Para o Brâmane, a Lei moral serve para preservar a pureza interior e a renúncia aos bens materiais, lutando pela Verdade e vivendo na prudência.

A Hierarquia ou ordem natural que deu nascimento aos varnas da India Védica é uma escala alicerçada no valor humano e numa ética profundamente transcendental e de nenhuma maneira pode ser associada ao determinismo hereditário que foi em parte responsável pela degradação da Civilização Hindu. A estagnação produz a paralisia da evolução, pois a consciência de cada ser humano é ilimitada e livre na sua vocação de se conquistar a si mesmo. A consciência, desperta e ilumina-se através do esforço de superação dos seus próprios limites, abrindo para si próprio novos horizontes de plenitude. Da mesma forma que a alma anima o corpo, proporcionando-lhe vida interior, tal como sensibilidade, pensamento e identidade própria, pois caso contrário teremos um simples robot semelhante a qualquer outro robot. Não é o Varna que condiciona o nascimento, mas a natureza intrínseca da alma que se reflete e se ajusta a um Varna. Pois o Varna é o corpo social temporal que a alma peregrina usa para expressar as suas potencialidades. Tal como o Mestre Buddha anunciava quando os Varnas da India já tinham estagnado num sistema profundamente injusto e corrompido pela ânsia de poder e privilégios: “não é pelo nascimento que um ser humano se torna Bramane, Kshatriya, Vaishya ou Shudra, mas sim pelas suas ações que um ser humano se torna Bramane, Kshatriya, Vaishya ou Sudra.

“Esta alma move-se, por assim dizer, em círculo, e terá que completá-lo. Ninguém desceu tão baixo que não chegue um momento em terá de subir. Pode começar na parte inferior, mas terá de retomar a curva ascendente para completar o circuito. Somos todos projetados de um centro comum, que é Deus, e voltaremos, depois de completar o nosso passeio, para o centro de onde partimos.”

Swâmi Vivekânanda


[1] Mathilde Loire (“Le système des castes en Inde en 10 points”).

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