Prefácio ao livro “Bhagavag Gita”

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PREFÁCIO

Algumas palavras sobre a Bhagavadgītā, nesta nova tradução de Ricardo Louro Martins

É um privilégio ter acesso a uma nova visão da Bhagavadgītā que, sendo “nova”, é, curiosamente, uma das que mais se ajusta ao cenário do texto original, escrita como ensinamentos num campo de batalha, enfrentando-se a desonra, a angústia e a morte, e sendo-se capaz de conquistar um nome, a vitória e o governo de si mesmo.

Talvez nos tenhamos esquecido que Arjuna, a quem é dirigido o discurso, é um guerreiro antes da grande batalha, não uma batalha qualquer, pois ele já havia demonstrado a sua condição heróica, mas sim a “grande batalha”, onde tudo se decidirá, onde nada será igual, onde a justiça na alma e na terra se afirmarão ou sucumbirão, onde, no final, tudo perecerá, restando apenas a “vontade do guerreiro único”, aquele que, como se diz na Luz no Caminho, vive no coração de cada um de nós, sempre disposto a combater pelo bom, pelo belo e pelo verdadeiro.

Evidentemente, sabemos que esta batalha, como todas as batalhas, é simbólica, sucedendo em toda a extensão da alma humana, e que Arjuna é o filósofo, o devoto dos sublimes ensinamentos, aquele que está disposto a conhecer-se e a conquistar-se a si mesmo. Mas, como um ácido corrosivo, o niilismo e o materialismo espiritual têm-se apoderado deste livro e destes ensinamentos, e o cântico a todas as formas de um “yoga egoísta” e desrespeitoso parece imperar, alheio a toda a atitude generosa, sacrificada, firme, constante e terrível para com as próprias sombras e desejos. Yogas, tão mal compreendidos que, seguindo-os, incumpriríamos todos os deveres para com aqueles que nos rodeiam – e pior, para connosco próprios – e converter-nos-íamos numa espécie de lesmas que deixam apenas o rasto das suas misérias ao passar pela vida. Que, por passarem, nem passam, tal é a sua imobilidade anímica, pois esperam que esta passe por elas, arruinando e violando a sua melhor natureza e esperanças. O noivo era, afinal, de barro e, ao abraçá-lo, com as suas vestes manchadas, a noiva não sabe se há-de rir-se ou chorar.

Cena do Mahabharata no Templo de Angkor Wat: Arjuna no carro de combate. Licença Creative Commons.

Esta é a primeira proeza desta tradução, a palavra yoga desaparece. Não é mencionada uma única vez, já que é traduzida pelo seu verdadeiro significado, o antigo, o original, o viril, que é «jugo». O jugo com que se enlaçam os bois para o trabalho, com que se cingem as forças e as naturezas opostas, harmonizando-as e governando-as. O jugo que nos permite conjugar os verbos e as vontades, e unir os deuses aos homens na consciência que é, a ambos, comum. E, assim, sempre que esta palavra sanscrítica aparece, é traduzida pela sua imagem mental certa: «jugo». E, às vezes, é necessário vencer o jugo que nos ata à matéria ou às nossas paixões, ou desatar aquele que nos oxida e ensombrece. Outras vezes, o yoga é o jugo que vincula o céu com a terra, o homem com Deus, é o conhecimento no qual todas as existências se enlaçam e encontram a sua consumação, como o fogo que se converte em luz, ou como o mar que se converte em ar no jugo da espuma branca, um cântico de vitória, sempre. Jugo é «união», «vínculo», «amarra», «aquilo que cinge» e que chega a ser, também, «pacto», «juramento», «selo», como o anel de pactos dos guerreiros indo-europeus, entre si e com os deuses, o círculo sem fim, no qual tudo retorna à sua origem e excelsa condição.

E Kṛṣṇa não olha compassivo a debilidade de Arjuna estendido no carro, mas ri-se, às gargalhadas, da sua cobardia, encorajando-o a sair dela o mais rapidamente possível, se é que ainda lhe resta um átomo de orgulho.

Os ensinamentos sucedem-se, um após o outro, como uma torrente de saber que nos arranca do estatismo e da ignorância (tamas), que nos incita a ver e a fazer, renovando assim o sentido e o compromisso com a vida, com o tempo e com a alma, cujo esquecimento nos leva ao esquecimento e à morte. Ensinamentos tão importantes que fizeram dizer à grande H.P. Blavatsky que esta obra, assim como os diálogos completos de Platão, nos outorgam o saber de todos os Degraus que levam à Iniciação, se um Mestre, com maiúsculas, nos guiasse através das suas metáforas e dos seus enigmas.

Enfrentar o grande drama da vida e ir conquistando e vencendo tudo o que nos bloqueia o caminho em direcção ao coração da luz pura é, definitivamente, deixarmos de ser crianças, assumirmos a grande jornada no lugar onde, outrora, a deixámos, com novas paisagens e novos horizontes. O peregrino devora, com os seus passos, o caminho e vai-se convertendo nele; a chama consome a oferenda e converte-se em caminho para o céu, e funde-se com ele; e a estrela, ainda que distante, íntima, sorri àquele que se aventura em direcção ao desconhecido, saindo de uma comodidade que o estupidificava.

Obrigado, Ricardo, pela tua tradução, e por fazeres deste livro, com os seus ensinamentos, retornando aos étimos originais, uma porta para o Céu dos Valentes, dos Generosos e dos Puros, já que assim são sempre os verdadeiros mestres e guias da Humanidade, e os filhos querem sempre parecer-se com os pais que adoram.

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