O significado do Yoga na Bhagavad Gita

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Extraido do livro Bhagavad Gita na tradução de Ricardo Martins

A palavra yoga, o «jugo», é, senão a mais difícil, definitivamente, uma das mais difíceis de serem traduzidas ao longo do texto, mas, também, a mais interessante de ser aqui analisada, pois a sua significação, mais ou menos ampla, condicionará toda a compreensão do diálogo. Em primeiro lugar, compete-nos recordar o leitor que a palavra yoga não deve ser aqui confundida com o significado que terá o yoga em Patañjali, enquanto acção mental e onde o «jugo» passa a significar «esforço», e ainda menos com a prática do yoga, tal como a compreendemos, por exemplo, dos sistemas Haṭha ou Kuṇḍalinī. Em segundo lugar, que a sua utilização ao longo do Mahābhārata nos sugere a sua imediata compreensão por parte do ouvinte, comprovando-nos, assim, a sua “clareza” e popularidade.[1] E, em terceiro lugar, não obstante o que acabámos de referir, que esta será três vezes definida na Bhagavadgītā, como «equanimidade»[2], como «habilidade nas acções»[3] e como «disjunção da conjugação com o sofrimento»[4], o que denota uma necessidade de a definir ou amplificar. No Ṛgveda, a palavra yoga significa, para além de «jugo», também «guerra», «conquista», «esforço» e «compromisso», onde é empregada em contextos que vão da guerra e do compromisso à velocidade e à inspiração. Quando esta é usada para significar «guerra», pode subentender um compromisso recorrente, como no verso «jugo após jugo, batalha após batalha, nós, os seus camaradas, invocamos Indra, o mais poderoso, por auxílio»[5], ou estar, simplesmente, em oposição ao conceito de paz, como no seguinte verso, presente num hino agressivo do Ṛgveda:

Que eu me torne superior, devorando tanto o vosso jugo (/ guerra) quanto a vossa paz. Eu marchei sobre as vossas cabeças. Levantem a voz (/ gritem) debaixo dos meus pés, como os sapos <coaxam> desde a água, como os sapos <coaxam> desde a água.

yogakṣemaṃ va ādāyāham bhūyāsam uttama. ā vo mūrdhānam akramīm. adhaspadān ma ud vadata maṇḍūkā ivodakān maṇḍūkā udakād iva.[6]

Estátua de Krishna e Arjuna. Licença Creative Commons.

O jugo aparece, também, associado à acção dos sacerdotes, na qual os deuses são invocados através de versos jungidos, e onde os Homens se “jungem” aos deuses. É nestes casos que encontramos conceitos como «os jugos de Agni (/ do fogo)»[7], onde o fogo ritual assume a imagem de «jugo», «caminho» e «união» entre o céu e a terra, mas também o jugo como «velocidade», em versos como:

E os nossos próprios pensamentos jungidos a cavalos (aśvayogāḥ ~ rápidos) lambem-no (a Indra), como as vacas aos seus vitelos recém-nascidos. As <nossas> próprias invocações aproximam-se dele, o mais perfumado dos homens, como as noivas <se aproximam> dos noivos.

uta na īm matayo ‘śvayogāḥ śiśuṃ na gāvas taruṇaṃ rihanti. tam īṃ giro janayo na patnīḥ surabhiṣṭamaṃ narāṃ nasanta.[8]

A sua raiz, √yuj, significa «jungir», bem como «arrear», «unir», «juntar», «reunir», «emparelhar», «combinar», «tensionar» e «esforçar», etc., mas também «pôr em movimento», como o carro ou o arado, «preparar» o carro de guerra e «preparar-se» para o combate. O acto de jungir, no Ṛgveda, está geralmente associado à coragem e ao compromisso, sendo semelhante ao seu uso no Mahābhārata, como no seguinte verso:

Os homens invocam Indra na guerra, para que este lhes junja pensamentos decisivos.

indraṃ naro nemadhitā havante yat pāryā yunajate dhiyas tāḥ.[9]

No Mahābhārata, este ocorre, com maior frequência, em contexto de batalha iminente[10], pois é empregado no momento em que se devem jungir os cavalos ao carro de guerra. Pôr o jugo, ou os cavalos ao jugo, equivale a dizer preparar-se para a batalha, para o cumprimento do dever ou para determinada missão difícil. Dentro do contexto épico, um dos usos mais típicos desta raiz verbal pode ser sumarizado no seguinte exemplo:

Junjam imediatamente os carros de guerra, tragam as lanças, os melhores arcos e as <mais> sólidas armaduras!

yojayadhvaṃ rathān āśu prāsān āharateti ca, dhanūṃṣi ca mahārhāṇi kavacāni bṛhanti ca.[11]

Estátua de Gatochaka, em Bali, sacrificando-se para salvar Arjuna do ataque de Karna.

A palavra yoga, na Bhagavadgītā, refere-se ainda, por extensão, ao cumprimento pessoal de um dever, podendo ser aplicada ao próprio guerreiro: «põe o jugo para a guerra!», literalmente, «faz-te jungido para a guerra!»[12], enquanto aceitação e preparação. Assim sendo, esta não significa simplesmente «disciplina», «via», «método» ou «concentração», como é mais recorrentemente traduzida, mas possui vários outros significados, sempre dependentes do contexto em que se encontra, sendo, ainda, provável que esta seja, em alguns versos, simplesmente uma abreviação de, e.g., karmayoga, embora nunca tenhamos optado por esta leitura. Segundo van Buitenen[13], a palavra yoga não encontra equivalente nas línguas ocidentais por ser demasiadamente ampla, podendo referir, simultaneamente: uma acção esforçada e difícil; o compromisso para com essa acção; o instrumento para a realizar; o cumprimento da acção que foi determinada; e a perspectiva da meta. Efectivamente, os significados de yoga mais perceptíveis no épico para além daquele de «jugo» são, precisamente, a «prática» e o «compromisso». Segundo Zaehner[14], o yoga na Bhagavadgītā, derivando do sentido de «jugo» e «preparação», pode significar: prática (oposta à teoria); exercício espiritual (como os de Inácio de Loyola e, uma vez mais, procurando levar a teoria à prática); autocontrolo; equanimidade; e habilidade. Ao comprometer-se com uma acção, o praticante da mesma, o yogin, tem à sua disposição instrumentos com os quais se deve jungir, tornando-se, por exemplo, buddhiyukta[15], «jungido com a (/ pela) inteligência». Noutros locais do épico[16], no entanto, a palavra yoga não significa apenas «jungir <os cavalos>» ou «pôr as rédeas», mas também, como vimos no caso dos Vedas, «ganhar velocidade», ideia que terá sido, posteriormente, ecoada nas práticas ascéticas de autocontrolo, recorrentemente comparáveis à condução de cavalos.[17] Nalguns casos, esta refere-se mais directamente ao controlo dos sentidos, como no seguinte exemplo:

Toda esta utilização do jugo (yoga) diz respeito à contemplação (/ orientação) dos sentidos, porque estes <sentidos> são a raiz de todo o calor e do inferno. Não há dúvida de que através da associação a estes sentidos se vai para o vício, mas é refreando-os, na verdade, que se alcança a realização (/ meta). Aquele que sobe, com majestade, a estes seis <sentidos> que estão sempre em si próprio, com os sentidos postos ao jugo e conquistados, não atravessa nem o mal nem o pecado. Vendo no carro de guerra o corpo do homem (puruṣa), dizem <os Antigos> que o espírito (ātman) é o condutor dos cavalos dos sentidos que, com estes favoráveis cavalos orientados e domados, vai, enquanto destemido condutor, em direcção à felicidade.

eṣa yogavidhiḥ kṛtsno yāvad indriyadhāraṇam, etan mūlaṃ hi tapasaḥ kṛtsnasya narakasya ca. indriyāṇāṃ prasaṅgena doṣam ṛcchatyasaṃśayam, saṃniyamya tu tānyeva tataḥ siddhim avāpnute. ṣaṇṇām ātmani nityānām aiśvaryaṃ yo ‘dhigacchati, na sa pāpaiḥ kuto ‘narthair yujyate vijitendriyaḥ. rathaḥ śarīraṃ puruṣasya dṛṣṭam ātmā niyantendriyāṇyāhur aśvān, tair apramattaḥ kuśalī sadaśvair dāntaiḥ sukhaṃ yāti rathīva dhīraḥ.[18]

Repetindo-se, basicamente, aquilo que já encontramos nas Upaniṣads:

Conhece-te a ti mesmo (ātmānam) como o guerreiro[19], mas o corpo (śarīram) como o carro de guerra. Conhece a inteligência (buddhim) como o cocheiro e a mente (manaḥ) como as rédeas. Dizem que os cavalos são os sentidos e os objectos dos sentidos os seus caminhos. “Aquele que jungiu a mente aos sentidos e ao eu, é quem usufrui”, dizem os sábios. Mas daquele que não compreende, com a mente sempre disjungida, são os seus sentidos descontrolados, como os maus cavalos de um cocheiro. Daquele que compreende, com a mente sempre jungida, são os seus sentidos controlados, como os bons cavalos de um cocheiro. Mas aquele que não compreende, que é negligente e sempre impuro, ele não vai por aquele caminho e alcança a transmigração. Aquele que compreende, que é atento e sempre puro, ele vai por aquele caminho e não volta a nascer. Aquele homem cuja mente tem as rédeas e o cocheiro a compreensão, esse vai até ao fim da estrada, o supremo caminho de Viṣṇu.

ātmānaṃ rathinaṃ viddhi śarīraṃ ratham eva tu. buddhiṃ tu sārathiṃ viddhi manaḥ pragraham eva ca. indriyāṇi hayān āhur viṣayāṃsteṣu gocarān. ātmendriyamanoyuktaṃ bhoktety āhur manīṣiṇaḥ. yas tv avijñānavān bhavaty ayuktena manasā sadā, tasyendriyāṇy avaśyāni duṣṭāśvā iva sāratheḥ. yas tu vijñānavān bhavati yuktena manasā sadā, tasyendriyāṇi vaśyāni sadaśvā iva sāratheḥ. yas tv avijñānavān bhavaty amanaskaḥ sadāśuciḥ, na sa tat padam āpnoti saṃsāraṃ cādhigacchati. yas tu vijñānavān bhavati samanaskaḥ sadā śuciḥ, sa tu tat padam āpnoti yasmād bhūyo na jāyate. vijñānasārathir yas tu manaḥpragrahavān naraḥ, so ‘dhvanaḥ pāram āpnoti tad viṣṇoḥ paramaṃ padam.[20]

Controlando as respirações e tendo jungido os seus movimentos, ele deverá, agora, expirar por uma narina até a respiração chegar ao fim. Aquele que sabe e que não é negligente deverá atar a mente, tal como maus cavalos são jungidos a um veículo.

prāṇān prapīḍyeha sa yuktaceṣṭaḥ kṣīṇe prāṇe nāsikayocchvasīta. duṣṭāśvayuktam iva vāham enaṃ vidvān mano dhārayetāpramattaḥ.[21]

Juramento de Bishma. Licença Creative Commons.

A comparação da mente com um veículo ou carro de guerra, bem patente no composto manoratha, «carro mental», i.e., «desejo» ou «fantasia», pertence à mais remota tradição indo-europeia, estando igualmente presente na literatura grega e latina. Esta analogia, que terá surgido dos círculos guerreiros ou, ainda, dos círculos sacerdotais que queriam comparar os seus exercícios aos dos primeiros, não nos poderá passar ao lado na leitura da Bhagavadgītā, uma vez que este diálogo expressa a sua origem em perfeita união com o espírito épico da obra em que se insere, expressando, sobretudo, a capacidade de se criarem analogias entre práticas, aparentemente, opostas. No Mahābhārata, o verbo «jungir» é ainda usado como metáfora do matrimónio, mantendo o seu sentido de «fidelidade» e «compromisso»:

Tal como Śacī reunida com Indra, e tal como Śrī reunida com Kṛṣṇa, também Subhadrā se jungiu, agradavelmente, ao Pāṇḍava Arjuna.

sā śacīva mahendreṇa śrīḥ kṛṣṇeneva saṃgatā, subhadrā yuyuje prītā pāṇḍavenārjunena ha.[22]

Se nos recordarmos, ainda, que yoga deriva da mesma raiz que yujya, «aliança» e «semelhança», e que yuga, «jugo», também é «geração» e «idade», compreendemos ainda outros usos que o aproximam de tudo aquilo que pode ser unido e assemelhado, que pode ser levado da diferenciação a uma identificação e identidade comuns, feita em direcção à Humanidade e a Deus.[23] Na verdade, encontramos a mesma ideia quando um prefixo negativo é aplicado à sua raiz verbal, em vocábulos como ayuja, «impar», «solitário» ou «sem igual», e ayogya, «impróprio», que nos permitem compreender ainda melhor de que forma este «jugo» se relaciona com a unidade, o sentimento colectivo e a fraternidade em todos os seus sentidos, pois nem separa nem diferencia, procurando vincular todas as coisas e dar-lhes uma mesma direcção. De acordo com Esteves Pereira, a palavra yoga designa, precisamente, «a conformidade com a Lei Divina»[24], ou seja, o ser-se capaz de se aliar, comprometer e assemelhar, essencialmente, o ser-se capaz de se cumprir com o dever pessoal em nome de um dever colectivo.

O deus Agni com um halo de chamas. Licença Creative Commons.

A palavra yogin, por sua vez, relativa «àquele que põe o jugo <nos cavalos>», ou ao «praticante», como o traduzimos, embora não apareça no Ṛgveda, terá referido, na sua significação mais arcaica, o soldado combatente que põe os cavalos ao jugo e que combate dentro de um carro de guerra.[25] O conceito mais aproximado que nos chegou é, no entanto, o de sthātṛ (= lat. stator), da √sthā, literalmente, «aquele que está <montado (/ presente)>», o «condutor», «o montador» ou a «autoridade», termo que é usado, por exemplo, ao invocar-se Indra: hariva sthātar ugra, «ó poderoso montador, ó possuidor de cavalos!»[26], o que equivale, aproximadamente, a dizer-se, «ó poderoso cavaleiro!» Semelhantes são os conceitos de rathin, «soldado combatente <montado no carro de guerra>» e mahāratha, «poderoso soldado combatente <montado no carro de guerra>», o «possuidor de um grande carro de guerra», etc., ainda que aqui a palavra não se refira à posição vertical do condutor ou do auriga (√sthā), mas sim às rodas do «carro», à palavra ratha (~ lat. rota). Não cedemos à enorme, mas, quiçá, desviante, tentação de traduzirmos yogin por «cavaleiro» ou «condutor», tendo optado antes por «praticante», com o sentido de «aquele que põe o jugo» e «aquele que põe <a teoria> em prática», já que é exactamente disto que se trata. Foi sobretudo a relação entre os opostos sāṃkhya e yoga, a «teoria» e a «prática», ou a «deliberação» e o «compromisso», aquilo que nos guiou nesta escolha. Tendo tudo isto em consideração, Zaehner, por exemplo, traduz yogin por «atleta do espírito»[27], num conceito próximo ao de «discípulo», i.e., «aquele que se disciplina», procurando articular o antigo conceito com o mais recente de desapego, que também o caracteriza. Ainda dentro desta questão do «jugo» e «daquele que põe o jugo», um dos aspectos mais interessantes, e que devemos ter em mente durante a leitura da Bhagavadgītā, é o facto deste diálogo se passar, precisamente, dentro de um carro de guerra, desenvolvido entre um auriga e um soldado combatente. Recordar este aspecto é ler de uma forma totalmente nova boa parte dos vocábulos e das metáforas utilizadas, uma vez que estes não são apenas mencionados ou imaginados, eles estão fisicamente presentes, a ponto de sermos capazes de imaginar o indicador de Kṛṣṇa a apontá-los durante o seu discurso. O carro de guerra de Arjuna é, por tradição, levado por quatro cavalos[28], facto que também não nos deverá ser alheio, pela dificuldade que constituiria, para os soldados responsáveis por agrupar estes quatro cavalos, o acto de os colocar sob o mesmo jugo, devido à sua necessária compatibilidade de altura, peso, temperamento e género, que permitiriam a desejada força de projecção. Esta dificuldade e equanimidade constituiu, como notamos no desenvolvimento da palavra yoga, uma fácil extrapolação para qualquer outro tipo de dificuldade ou desafio humano. O carro de guerra da Índia épica, por sua vez, era muito semelhante ao sumério e ao egípcio, e tinha, geralmente, duas rodas, sendo muito veloz e eficaz enquanto plataforma de tiro à distância, ainda que algumas representações tardias o nos revelem com quatro rodas, sendo naturalmente mais pesado e lento, mas que causaria um grande impacto enquanto arma de choque, inclusivamente sonoro, sobre as linhas inimigas. O carro de Kṛṣṇa, por exemplo, é descrito com duas rodas que são semelhantes ao sol e à lua[29], constatando-se o seu uso metafórico. Por outro lado, diz-se que o carro de guerra de Arjuna mal consegue levar todas as suas armas[30], ainda que o mais provável é que existissem vários carros de apoio que transportassem todas as armas necessárias ao soldado combatente, podendo esta referência ser, igualmente, metafórica. A par disto, a descrição do soldado combatente épico é equivalente à do védico: ao passo que multidões inteiras de soldados são colectivamente abatidas na guerra, ele costuma sobreviver ao dia de batalha, reduzindo facilmente uma enorme oposição de soldados a pó, sendo verdadeiramente desafiado, apenas, por outro soldado combatente da sua classe, com quem tem por hábito, ainda, combater corpo a corpo. O soldado combatente, chamado de savyeṣṭha ou savyaṣṭhā, «o que está à esquerda», é aquele que permanece de pé ou sentado no assento do carro, o garta ou vandhura. A sua arma mais importante é o arco e a flecha, embora usasse também lanças, espadas e punhais. O cocheiro é o que está à direita, sendo chamado de sārathi, ou mesmo de sthātṛ, não possuindo assento. No caso de Arjuna, não se refere um assento, mas sim o «fundo do carro»[31]. Ao que parece, o cocheiro ia de pé, agarrando-se às rédeas, enquanto o soldado combatente, sem se agarrar a nada, salvo ao arco e à flecha, procuraria equilibrar-se à esquerda, ou na parte detrás do carro, de onde teria um ângulo de tiro maior, durante a batalha:

O solo estava repleto de homens caídos dos seus carros, e <Arjuna,> o Conquistador de Riquezas, com o arco na mão, parecia dançar no meio da batalha.

rathopasthābhipatitair āstṛtā mānavair mahī, pranṛtyad iva saṃgrāme cāpahasto dhanaṃjayaḥ.[32]

Procurando por todos os meios um equilíbrio que, uma vez mais, tem uma função metafórica. Talvez seja precisamente esta a mais emblemática imagem do épico e a que emerge da Bhagavadgītā: um Kṛṣṇa sempre vertical e viril que, tomando as rédeas e de olhos postos no horizonte, incita os quatro cavalos postos ao jugo e os aponta às linhas inimigas, e um Arjuna que, empunhando o seu poderoso arco, se procura equilibrar e permanecer de pé dentro do carro de guerra, que confia no seu auriga e que o segue, sejam quais forem os perigos e as provas que, juntos, venham a enfrentar.


[1] A palavra yoga e outras derivadas da mesma raiz verbal, aparecem mais de cem vezes ao longo da BhG.

[2] 2.48: samatvam.

[3] 2.50: karmasu kauśalam.

[4] 6.23: duḥkhasaṃyogaviyogam.

[5] ṚV 1.30.7: yoge yoge tavastaraṃ vāje vāje havāmahe sakhāya indram ūtaye. Para a palavra yoga no ṚV ver, sobretudo, Jamison, Brereton, The Rigveda: the earliest religious poetry of India, New York, Oxford University Press, 2014.

[6] ṚV 10.166.5.

[7] ṚV 2.8.1: yogāṁ agneḥ.

[8] ṚV 1.186.7.

[9] ṚV 7.27.1.

[10] e.g., MBh 5.149.47.

[11] MBh 1.212.17.

[12] BhG 2.38: yuddhāya yujyasva! O uso do verbo reflexivo é habitual na Bhagavadgītā, onde a palavra yoga ganha o sentido de «auto-jungir-se» a uma prática ou a um dever específicos. A ideia de se jungir o corpo, através de uma determinação mental, terá originado a nossa actual compreensão do yoga.

[13] Buitenen, The Bhagavadgītā in the Mahābhārata, Chicago, The University of Chicago Press, 1981, p. 18.

[14] Zaehner, The Bhagavad-Gītā: With a Commentary Based on Original Sources, London, Oxford University Press, 1969, p. 148.

[15] = BhG 2.39: buddhyā yuktaḥ.

[16] e.g., MBh 5.160.29, 5.151.17-18, 6.16.21, etc.

[17] KaṭhU 3.3-6, MBh 5.34.57.

[18] MBh 3.202.18-21.

[19] Em ātmānaṃ rathinaṃ viddhi, podemos ler «conhece o eu como o guerreiro». Para outros exemplos da alma, ou espírito, a guiar o carro de guerra, cf. MBh 3.2.66, 3.211.23, 5.34.59, 5.46.5, 11.7.13, 12.240.11, 14.51.3, etc.

[20] KaṭhU 3.3-9.

[21] ŚvetU 2.9.

[22] MBh 1.55.34.

[23] Cf. Oguibenine, “Sur le terme yóga, le verbe yuj- et quelques-uns de leurs dérivés dans les hymnes védiques”, Indo-Iranian Journal 27, 1984, pp. 97-98.

[24] Esteves Pereira, op. cit., p. 78.

[25] Cf. White, “Early Understandings of Yoga in the Light of Three Aphorisms from the Yoga Sūtra of Patañjali”, in Ciurtin (ed.), Du corps humain, au carrefour de plusieurs savoirs en Inde, Bucarest/Paris, Université de Bucarest/De Boccard, 2004.

[26] ṚV 1.33.5.

[27] Zaehner,The Bhagavad-Gītā: With a Commentary Based on Original Sources, London, Oxford University Press, 1969, p. 223.

[28] Já no ṚV são referidos dois (1.5.4), três (10.33.5), quatro (2.18.1) ou cinco (10.94.7) cavalos postos ao jugo de um carro de guerra.

[29] MBh 5.81.15.

[30] 1.215.15.

[31] BhG 1.47: rathopastha.

[32] MBh 4.57.9.

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