Mitra e Varuna, os Senhores da Lei e da Verdade

capa_mitra_varuna

Apesar de, ao longo dos séculos, os deuses Mitra e Varuna terem perdido relevância na tradição religiosa da Índia, eles foram deuses e conceitos importantíssimos dos antigos ensinamentos védicos e inspiraram a busca da Verdade e a manutenção de um caminho harmonioso para a humanidade, baseado nos mais elevados valores de fidelidade, esforço, coragem e fraternidade. Mitra e Varuna são como deuses gémeos, sempre juntos, as leis do Universo que guardam a justiça e a verdade.

A raiz dos seus nomes, a partir do sânscrito, revelam a sua natureza: Mitra significa “um aliado” ou “amigo”, e Varuna parece derivar de “Var”, que significa ligar, aquele que une. Mitra e Varuna são descritos nos Vedas como os dois nobres (Aryas) Asuras (ou senhores) dos Devas (Devanam asura).

Mitra a dar morte a um touro. Museu Británico. Domínio público.

O termo Asura, apesar de num período posterior, devido à perda do sentido profundo, se relacionar com os demónios, em tempos remotos da Índia, era aplicado ao Espírito Supremo, significando o termo “aquele que controla a respiração ou a vida”, o Senhor da Vida e, por isso, muito especialmente aplicado a Varuna, o omnisciente Asura (asura prachetahRV 1.124.14), “o Rei Universal” (RV 8.42.1).

“Eu sou o rei Varuna; esses poderes (Asurya) foram dados a mim pela primeira vez” (RV 4.42.2)

Em tempos antigos, Varuna possuía um lugar de destaque entre os deuses védicos, aclamado como o maior Deus, Asuramahat, até ao momento em que o Deus Indra assumirá destaque. O Rig Veda (7.83.9) compara-os: “Indra protege do inimigo externo; Varuna protege e defende a ordem moral (Rta)”. Varuna é “Risadasam”, o destruidor de inimigos (RV 1.2.7), “Tuvijata Uruksaya”, o poderoso (RV 1.2.9). Como Asuramahat, possui a totalidade dos poderes divinos (asuratvam) e é Mahat, “O Grande”, a Inteligência Cósmica. Por isso, é considerado o soberano que criou o Universo, estabeleceu a ordem cósmica e governa os planos físicos, morais e espirituais.

Varuna, como Monarca Universal, é Rei de todos os deuses, deus da luz celestial; governante da ordem cósmica, Rta; guardião e suporte da rectidão, Dharma; o juiz severo, mas misericordioso, que julga todos os homens e pune os malfeitores; o curandeiro com mil remédios; o omnipresente e omnisciente; o vidente por excelência; o mais sábio; o controlador dos destinos da humanidade; aquele que forja a relação mágica entre Deus e os homens; o rei das águas.

Escultura de Váruna no templo Rajarani em Orissa Índia.

A realeza de Mitra-Varuna encontra-se na preservação da Verdade. No hino védico de Madhucchandas, dirigido a Mitra e a Varuna, apela-se a estes deuses que ajudem a encontrar a força e o discernimento interior para procurar a Verdade: “Eu invoco Mitra, o do discernimento purificado, e Varuna, o destruidor dos nossos inimigos, para que realizem um luminoso entendimento”. Existem dois obstáculos que impedem a mente de ser um espelho perfeito e luminoso da Verdade: primeiro, a impureza do discernimento que leva à confusão da verdade e, em segundo, as muitas causas ou influências que interferem com o desenvolvimento da verdade que impedem a sua objectivação ou prática na vida. Mitra e Varuna são a expressão da vontade, a força do sacrifício interior guiado por um discernimento purificado, livre dos impedimentos do ego. São eles que lutam pela Verdade através das suas faculdades de visão, discernimento, inspiração e intuição.

Nos Brahmanas (obra de comentário aos Vedas), Varuna aparece como Senhor da Verdade e como aquele que envolve toda a existência. É a Lei em toda a existência e, por isso, também aquele que une todos os seres e estes a Deus. A cor que lhe corresponde é o preto, associado à verdadeira Luz, a luz espiritual da qual a luz visível é apenas o seu corpo ou reflexo, que se encontra detrás de toda a manifestação e que guarda a sua ordem. É a escuridão ou a “claridade absoluta” escondida detrás da não-forma das águas primordiais, tudo envolvendo, onde não existia dia nem noite, nem ainda qualquer diferenciação.

Mitra-Varuna representa Vénus, a luz espiritual que nunca se ausenta da vida do homem. Como estrela da manhã que anuncia o Sol, aparece como Mitra, e como estrela vespertina, que não deixa o céu sem luz, é Varuna. Como Senhor da Luz, Mitra-Varuna leva luz à vida, permitindo identificar os erros e impedir a queda no abismo moral.

Varuna aparece por vezes como filho de Aditi, a Grande Mãe, e é o chefe dos Adityas, guardião do oeste (sol poente), representando o “lado obscuro do Sol”, ou o vigilante da noite, pois a fidelidade à Lei não pode residir apenas no plano visível. Mesmo quando ninguém observa, quando não se torna visível a acção, a justiça está lá. Não vigia apenas as nossas acções mas também os nossos pensamentos.

Varuna encontrava-se ligado a Soma, a bebida dos deuses e da imortalidade, e por seu intermédio à Lua como reflector da luz divina do Logos.

Mitra conecta-se com o valor da harmonia e integridade da verdade, princípios que são os garantes da manutenção de relacionamentos fortes. Assim abrangia as relações comerciais e os contratos, tal como das amizades, relações sociais, etc. que permitem uma vida pacífica em justiça.

Nos textos védicos, Mitra é o Deus que protegeu o Sol, Deus da Verdade, aquele que remove a “inverdade”, Senhor da luz que destrói a obscuridade. Mitra é o olho que vê tudo como um todo, o olho que vê o mesmo Ser em todos os seres e que impulsiona todo o pacto da alma para um novo nascimento da consciência.

Mitra surge como deus da Amizade através da integridade da verdade e dos juramentos que permitem manter laços fortes, sendo muitas vezes apresentado como intermediário entre os homens e os deuses, o mais grandioso dos pactos.

A oração védica upasthana, recitada ao nascer do Sol, é dirigida a Mitra e diz:

“Ó Deus! Em busca de Ti, deixamos para trás o reino físico eterno, para meditar numa entidade ainda maior, a nossa alma. Alcançamos a luz mais ditosa e luminosa, o iluminador de todas as coisas, até mesmo da glória resplandecente do Sol, que é a maior de todas. Todas as coisas deste mundo agem como sinais para nos conduzir à divindade, o conhecedor de todas as coisas, o possuidor de todos os poderes destrutivos e sustentadores. Certamente esse é o caminho correcto para a compreensão deste universo.”

Mitra é o Senhor das vastas pastagens, que tem mil orelhas e dez mil olhos. É testemunha da Verdade e vê em toda a parte olhando em profundidade as coisas, sempre desperto sem nunca adormecer, cuida do seu “rebanho”, a humanidade.

Mitra-Varuna encontra-se unido ao conceito de Rta, princípio de integridade de todas as formas e unidade da Vida. Deriva da raíz “Ri”, que significa mover, e é o princípio dinâmico inerente ao Universo. É por Rta que as estrelas e planetas se movem, as estações se sucedem, as águas fluem, nasce-se, cresce-se, envelhece-se, morre-se… e se renasce. É a estrutura que une o homem, a natureza e Deus. De certo modo, é o Dharma, a Ordem, que interpenetra e protege toda a existência. No Atharva Veda diz-se: “Tu és Varuna, o guardião do Dharma” (AV 6.132). Rta é por um lado a ordem do Universo, mas também é a ordem moral. É a expressão objectiva de Satya, a Verdade Absoluta. Quando a harmonia é quebrada pelo caos e falsidade (Anrta) traz consigo a desonestidade, falsidade, fealdade e a decadência.

Os Deuses das 8 direções.

O pecado reside assim em qualquer acção desarmónica impregnada de avareza e egoísmo, ferindo a harmonia na natureza e no homem. Aí surge Varuna lutando contra os demónios que são o mal no coração e nas mentes humanas, surgidos das suas fragilidades e fraquezas. A punição de Varuna é um modo de purificação, não por meio de rituais, mas sim colocando o homem face a face com os seus erros, de modo que, reconhecendo-os, os possa remover do seu coração e da sua mente, restabelecendo assim a beleza da sua harmonia interior. O único perdão concedido por Varuna é o da correcção e da não repetição do erro. Varuna é misericordioso com aqueles que transgridem as leis por ignorância ou imprudência, concedendo graças ao penitente que juramenta não ceder novamente às forças malévolas e assim não pecar novamente.

Assim, o palácio de Varuna possui mil portas para que seja acessível a toda a humanidade, já que são muitos os caminhos que podem conduzir o homem à Verdade.

Varuna monta Makara, o monstro quimérico de características reptilianas. Numa chave, Makara é a matriz do caos, o não manifestado, por outro lado, ele gera o tempo no sentido da dissolução, a natureza cíclica. Varuna é, pois, aquele que dirige e põe ao seu serviço o plano material, não o destruindo, mas “domesticando-o”, colocando-o ao seu serviço.

Como uma das mais antigas divindades dos Vedas, Varuna aparece como aquele que abrange o mundo inteiro, não tendo sido criado nem nascido, que existia antes da criação e que se manifestou com o despertar do mundo. É intrínseco à natureza Divina, esteja o Universo em estado de Pralaya (imanifestado) ou no seu Manvatara (manifestação).

No Rig Veda, são muitos os epítetos que celebram a glória de Varuna: o Grande (Mahat); o vasto (brahat); o poderoso (bhuri); o imenso (prabhuti); a morada da vida (visvayu); o conhecedor (vidvas); o sábio (medha); o inteligente (dhira); o inspirado (vipra); o vidente (kavi); o grande poeta (kavitara).

Sendo quatro as principais funções de Varuna que aí aparecem: Monarca universal e Senhor do Céu; Mantém a Ordem Cósmica (Rta); Relação com as águas (apas); e como divindade omnisciente que vigia as acções humanas.

Os atributos e funções de Varuna realçam o seu carácter de elevação moral, sendo o seu culto e ritos não baseados na busca de quaisquer benefícios ou dádivas, mas na purificação do coração e na libertação dos erros com confissão da culpa e arrependimento, procurando o discernimento para não se voltar a errar. Os hinos a Varuna são de uma elevada exaltação do seu esplendor e da sua misericórdia, pois apesar de criar pavor no culpado ele é compassivo para o virtuoso.

A devoção a Varuna é a aspiração à morada da Verdade que não é assombrada pelo temor da morte, as orações são-lhe dirigidas para que guie ao longo do caminho até à Verdade, sendo conduzidos da mortalidade à imortalidade, da inverdade à verdade.

Varuna aparece no Yajur Veda como o Grande Médico (maha-bheshaja) e Senhor dos Médicos (varunam heshajam patim), pois a sua função é restabelecer a harmonia, fonte de toda a saúde do corpo e da alma.

No Rig Veda, Varuna surge como o deus mais resplandecente, de pele azul-celeste radiante, com Agni (o Fogo) no seu rosto e Surya (o Sol) nos seus olhos. Tem as mãos macias e belas, segurando nelas um lótus e um laço, estando adornado com um manto dourado.

Diz-se que o seu laço (Pasa), feito de uma serpente, serve para segurar aqueles que pecam de modo a não se perderem e se poderem corrigir. O laço é triplo, conhecido como a tríplice miséria (tapa-traya) e que restringe o homem nos seus 3 planos: físico, psíquico e mental. Mas ele é também o laço da força do Amor divino que mantém as almas unidas a deus, ou o que mantém a consciência humana unida ao seu princípio divino através da moral.

O lótus que leva na sua mão, flor mística por excelência da Índia e um pouco por todo o oriente, possui um vasto e rico simbolismo, mas destacamos os aspectos que mais se relacionam com o tema. Assim, as águas sob as quais cresce, representam o mundo inferior, enquanto que as suas folhas representam a Terra (ou manifestação) emergente desse mundo e onde a vida se desenrola, da qual surge a flor de lótus, símbolo do divino que culmina o processo evolutivo. É nesse sentido que o lótus está associado a Varuna, como aquele que faz emergir a Vida das águas primordiais e zela atentamente para que o lótus com os seus perfumes de virtudes desperte em cada ser.

Deus Varuna. Domínio público.

Outro símbolo bastante interessante ao qual está ligado Varuna é a Árvore invertida com as suas raízes no céu. Ele é as raízes dessa árvore da vida, a fonte de toda a criação, tendo a árvore brotado do umbigo de Varuna.

Como já vimos anteriormente, Varuna aparece descrito como tendo milhares de olhos (as estrelas, símbolos dos arquétipos), que distribui bênçãos e punições (Karma) de acordo com as acções mais ou menos ajustadas à Lei (Dharma). Mais tarde, na Índia, esses aspectos serão assumidos pelos filhos de Surya (o Sol), Yama, o deus da morte, associado ao Karma e à sua irmã gémea, Shani ou Yami, que se encontra relacionada com o Dharma.

Varuna é a luz da sabedoria que encontra o mal, é a luz do discernimento que permite diferenciar, julgar e determinar. Ele ama o Ser em cada um e por isso remove tudo o que lhe pode causar dano, é por isso também denominado de “removedor de obstáculos”

O cavalo (asva) encontra-se ligado a Varuna, pois o cavalo é símbolo solar, do vigor, velocidade e majestade, simbolizando o rei e a realeza. Desta relação, e sendo Varuna símbolo da realeza e da defesa da lei que permite manter a ordem social, qualquer Rajasuya (cerimónia de consagração de um rei) era dedicada a Varuna.

É pela vontade do desejo de Varuna e através da sua sabedoria (Maya) que as formas (Murtha) surgem do mundo ou matéria indiferenciada (a-Murtha). Nesse sentido, ele é um criador, pois o mundo nasce da sua mente divina (Manas), é karana-Brahman, “Brahman com desejo de criar”. Neste mesmo sentido, Varuna aparece também como a vontade de Purusha, a vontade que cria o mundo desde Prakriti (matéria primordial).

“O poder de Varuna é tão grande que nem os pássaros, enquanto voam, nem os rios, enquanto fluem, podem atingir o limite de seu domínio, o seu poder e a sua ira (RV 1.24.9)… Ele abraça o Todo e as moradas de todos seres (RV 8.41.1-2). Ele é encontrado até mesmo na menor gota d’água. Varuna é omnisciente. Ele conhece o voo de todos os pássaros no céu, o caminho dos navios no oceano, o curso do vento longínquo que viaja e contempla todas as coisas secretas que foram ou serão feitas (RV 1.25.7-11) … Nenhuma pode escapar da vista de Varuna, pois os seus espiões, sempre trabalhando, têm milhares de olhos e olham para todas as três regiões… Ele testemunha a verdade e a falsidade dos homens (RV 7.49.3). Ele conhece todos os movimentos secretos dos homens… Se um homem anda, se senta, dorme, sonha; se duas pessoas se aconselham, Varuna está sempre presente ali como a terceira pessoa…. Nenhuma criatura pode piscar o olho sem a sua presença (RV 2.28.6). O piscar dos olhos dos homens são todos contados por Varuna, e tudo o que o homem faz, pensa ou inventa, Varuna sabe. (AV 4.16.4-5 ). As suas armadilhas estendem-se por três vezes sete vezes.

No Rig Veda, Varuna aparece também em relação com as águas primordiais, a matriz da vida universal que é fonte de todas as possibilidades de manifestações universais. Varuna é descrito (RV 8.41.8) como “o oceano escondido” (samudro apicyah).

É referido como Apam-adhipathi, “o Senhor que Reside nas Águas Primordiais”, outras vezes é chamado de Apam Shishu, “filho das águas”, das águas matriciais, Apas, essas águas são descritas como de tonalidade dourada, puras e purificadoras.

A ligação de Varuna, por um lado, ao Fogo e, por outro, à Água, demonstra possuir o princípio purificador da Vida.

O facto de reinar sobre as águas, sendo uma divindade do Fogo, faz que seja também nomeado como Apam Napat (Apam = Água; Napat = Neto), significando esta expressão o embrião das águas ou Neto das Águas, que também é utilizada para a divindade Agni (Fogo). Talvez que o seu significado se refira ao Raio (Fohat) como poder criador e impulso de vida que une toda a manifestação. Através da definição de Fohat por H. P. Blavatsky, no Glossário Teosófico, podemos encontrar facilmente as características que temos vindo a ver sobre Varuna:

“[Fohat] Termo empregue para representar a potência activa (masculina) da Shakti (potência reprodutora feminina)” na Natureza. A essência da electricidade cósmica. […] Fohat é uma coisa no Universo ainda não-manifestado e outra coisa no mundo fenomenal e cósmico. No primeiro, é uma ideia abstracta, contudo, não produz nada por si só, é simplesmente o poder criador potencial, através de cuja acção o númeno de todos os fenómenos futuros se divide, por assim dizer, para se reunir num acto místico supra-sensível e emitir o Raio Criador. No segundo, é o oculto poder electrovital personificado que, sob a vontade do Logos Criador, une e combina todas as formas, dando-lhes o primeiro impulso, que com o tempo, se converte em Lei; a força activa na Vida Universal, o princípio animador que electriza cada átomo, fazendo-o entrar na vida; a eminente unidade que enlaça todas as energias cósmicas tanto nos planos invisíveis quanto nos manifestados. Penetrando no seio da substância inerte, impulsiona-a para a actividade e guia as suas diferenciações primárias nos sete planos da Consciência cósmica. Actua sobre a substância manifestada ou Elemento único e, diferenciando-o em vários centros de energia, põe em acção a Lei de Evolução Cósmica que, obediente à ideação da Mente Universal, faz brotar todos os diversos estados do Ser no sistema solar manifestado. É o laço misterioso que une os Espírito com a Matéria, o Sujeito com o Objecto; a “ponte” através da qual as ideias existentes no Pensamento Divino são impressas na Substância Cósmica, como Leis da Natureza. Assim, pois, o Fohat é a energia dinâmica da Ideação Cósmica ou, considerado de outro ponto de vista, é o meio inteligente, a potência directora de toda a manifestação, o Pensamento Divino transmitido e manifestado através do Dhyân Chohan, os Arquétipos do mundo visível. Na sua qualidade de Amor divino (Eros), o poder eléctrico de afinidade e simpatia, Fohat é representado alegoricamente procurando unir o Espírito puro, o Raio inseparável do Absoluto, com a Alma, constituindo ambos a Monada, no homem, e, na Natureza, o primeiro elo entre o sempre incondicionado e o manifestado. […]”

Mitra e Varuna possuem uma ampla significação, cujas palavras para os caracterizar são pobres, face às dimensões simbólicas a que estão associados e que abrem caminho na nossa alma para o entendimento dessa ordem universal que permite que nenhuma forma de vida se perca no seu caminho em direcção à Verdade. São como uma mão forte, ou como diriam os egípcios, uma garra da leoa protectora Sekhmet, que permite resgatar com amor e firmeza os seus filhos da beira do precipício. Que as garras doem?! Sim, não por quererem criar dano, mas sim por causa da cegueira da nossa ignorância que nos leva ao perigo da proximidade da “morte” da nossa alma. Com uma força de Amor imensurável, Deus, o Mistério ou o nome que lhe queiramos dar, está presente no interior de todas as formas, de todos os seus filhos, impulsionando-os à vitória da Verdade, da luz, sobre a escuridão de qualquer sombra onde essa luz ainda não chegou. Luz é nascimento, impulso, companheira e finalidade da senda da existência.

Como dizem os hinos védicos, que Mitra-Varuna sempre nos ajudem a ver com claridade os erros e darem-nos a força para os corrigir, irradiando a sua luz para que os nossos olhos possam ter uma visão sempre presente e luminosa sobre a Verdade que se encontra detrás de uma das Mil Portas do palácio de Varuna.

José Ramos

Coimbra, 20 de Fevereiro de 2021

Deixe uma resposta