Comentários ao Capítulo X do Dhammapada: A Violência

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Nem caminhando nu, nem cabelos emaranhados, nem lama, nem jejum, nem deitando-se no chão, nem cobrindo-se de cinzas e poeira, nem sentado sobre os calcanhares (em penitência) pode purificar um mortal que não tenha superado a dúvida.

A dúvida aparece no capítulo do Dhammapada sobre o Dandavagga[1] como um dos elementos condutores da violência no Ser Humano. Talvez porque a dúvida esteja na origem do separatismo, a polaridade inerente à realidade humana e, desta forma, não exista nenhum Ser Humano ausente de dúvida ou de alguma forma de violência. Este facto pode ser visto como natural, pois ninguém se encontra na unidade constante. Ninguém possui a certeza absoluta, ou a verdade absoluta, ou o pensamento absoluto. Desta forma, vivemos em dualidade, ou seja, em dúvida permanente. A Violência, cujas manifestações são tão diversas como o número de estrelas que encontramos no céu, tem como raiz a dúvida e como consequência a ira, a opressão, a vingança e a insensatez. Na Natureza Humana, a violência e todas as suas formas afetam o plano físico, emocional, mental e espiritual. Apesar da violência física apresentar-se como um dos aspetos mais chocantes da violência, aquela que entendemos como mental ou emocional não pode ficar negligenciada ou esquecida. A intolerância apresenta-se como uma importante faceta da violência que não manifestamos com todos os que nos rodeiam, apenas com alguns. E por esse motivo, a violência é um subtil aspeto da nossa existência, pois nem todos são vítimas dela. Apenas aqueles que suscitam a dúvida e aumentam as nossas polaridades estão sujeitos à nossa intolerância e violência. Desta forma, todos temos sementes de violência a retirar e todos temos algo a aprender sobre o Dandavagga.

A Ira

Que não se fale asperamente a ninguém, pois aqueles a quem se fala podem retaliar. Em verdade, o discurso irado dói, e a retaliação pode avassalar.

Se a dúvida gera violência pelo conflito que criámos interiormente, devido à ausência de unidade, a ira e as palavras surgem como uma consequência externa desta causa primeira. Uma mente estável e nobre não duvida. Sabe para onde se dirige e para onde direciona o seu pensamento, evitando assim a tormenta da discussão.

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Uma mente instável e quebrada não sabe para onde dirige o seu pensamento, cedendo ao tumulto e ao conflito interno, materializado no discurso violento e agressivo. A retaliação, como resposta ao sucedido, gera no “agressor” um comportamento de vitimização, pois este não se consciencializou que a dúvida interior a que estava sujeito gerou um conflito e um acto de violência. Da mesma forma que ao atirarmos uma pedra para um lago a consequência surge no conjunto de ondas que aparecem, também o falar asperamente poderá ter uma retaliação avassaladora como consequência karmica do mesmo. As palavras surgem como um dos comportamentos mais recorrentes da violência: palavras com ira, com indiferença, com arrogância ou mesmo com o silêncio, podendo ser o primeiro ponto a superar no nosso caminho rumo à unidade.

A Opressão

Aquele que, ao buscar a felicidade, oprime com violência outros seres que também desejam a felicidade, não alcançará felicidade daí em diante.

A opressão apresenta-se como uma humilhação realizada pelo opressor perante algo exterior. Esta necessidade surge no coração daquele que, ao duvidar de si mesmo e das suas potencialidades divinas e profundas, não aceita a elevação e a felicidade dos demais. A dúvida de si mesmo é um princípio para a violência ao gerar comportamentos de vaidade e arrogância, pois o poder apresenta-se como uma necessidade intrínseca ao Ser Humano.

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Perante a não-dúvida, o poder surge como uma força interior, como uma unidade interna, ausente de polaridades e conflitos. Mas perante a dúvida, o poder surge como uma força que tudo empurra e arrasta para a conquista dos seus desejos. Não existindo conflito interno, a felicidade abre-se no coração de cada Ser Humano que vê a felicidade do outro como a fonte da sua própria felicidade. Não existe competição, mas cooperação e fraternidade.

A Vingança

Se, como um gongo quebrado, a pessoa silenciar, aproxima-se do Nibbāna, porque nela já não mora a vingança.

O Silêncio, apresenta-se no Dhammapada como um dos caminhos para a unidade interior, e por isso acompanha o Homem justo, nobre, estável, calmo e liberto de desejos. Na ausência de silêncio a queda no ruido interno e das ensurdecedoras palavras derivadas do conflito dos “eus” suscitará a vingança como uma forma de justiça cega.

A vingança simboliza o não-conhecimento das leis da natureza. A ignorância leva à vingança pois a dúvida de uma ordem universal gera a descrença e o impulso arrogante de querer assumir o leme da existência.

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Abrir caminho ao “Som Insonoro” que habita no interior do Ser Humano e construir uma porta de acesso à Unidade e à Paz interior atenua a vingança e o violento desejo de resposta ante a incompreensão da vida. O importante ato de responder a algo deve exigir a evocação do silêncio e do discernimento, pois entre as múltiplas vozes internas, a vingança aparece disfarçada de justiça e retidão. Por esse motivo, a violência apresenta-se muitas vezes sob a bandeira da verdade, pois ainda não conhecemos as ténues fronteiras desta realidade.

O Insensato

Quando o tolo comete maldades, ele não percebe (a sua má) natureza. O homem insensato é atormentado por seus próprios atos, como queimado pelo fogo.

Toda a forma de violência gera o seu oposto arrependimento na consciencialização do papel encenado pela insensatez. No entanto, o tormento interior, contrário à tranquilidade, torna-se muitas vezes necessário ao Ser Humano que caminha em direção à Unidade, ao Dharma. Pelo tormento interior, consciencializamos as dualidades e as dúvidas com maior visão.  O fogo purifica todos os elementos causadores de dúvida, fazendo clarear no Ser Humano as suas certezas mais profundas. O karma torna-se assim o caminho para o Dharma, pois o Ser Humano localiza a sua existência entre a Dualidade e a Unidade, entre a dúvida alicerçada nas variantes constantes da vida e as dúvidas alicerçadas pela certeza última da existência.

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A primeira como a ilusão do movimento e a segunda como o movimento ascendente em si. Mas todo o Ser Humano tem em si a insensatez, pois todos possuímos zonas de ignorância. E perante aquilo que não conseguimos ver, as dúvidas evocam o medo e o medo a violência. Desta forma, passamos pela vida a sentir este fogo que queima o nosso interior. E enquanto isso acontecer, significa que somos insensatos.    

O Silêncio e a Felicidade

Dez são os estados daquele que comete violência: Dor aguda, ou desastre, lesão corporal, doença grave, ou perturbação mental, problemas que advêm do governo, ou graves acusações, perda de parentes, ou perda de riqueza, ou casas destruídas assoladas pelo fogo; após a dissolução do corpo esse homem ignorante nasce no inferno.

Este seria o caminho para a destruição deste sofrimento ilimitado: Pela fé e pureza moral, pelo esforço e pela meditação, pela investigação da verdade, por ser rico em conhecimento e virtude, e por ser consciente.

O domínio de nós próprios gera-se pelo encontro com a unidade dentro de nós. Talvez esta seja uma ideia difícil para o Homem atual. Mas iniciar um caminho de encontro com a nossa tranquilidade através do Silêncio e da sessação das dúvidas internas, poderia ser, tal como refere o Dhammapada, uma forma de combater a violência, pois a exteriorização da nossa dor e do nosso combate interno não são mais do que um reflexo destes ruídos que não acessam ao Som Interno.

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A procura da felicidade, do encontro com a unidade e a saída da dualidade, do conflito e da luta interna gerada pelas dúvidas, é um estado comum no Ser Humano. No entanto, a ausência de domínio interior, anula o discernimento, tornando o Homem insensato e “tolo”, como refere o Dhammapada, pois toma por realidade o complexo mundo de enredos ilusórios provocados pelo desejo e pela incompreensão da roda que faz girar o mundo. Consciencializar a nossa insensatez e compreender as nossas zonas de violência, é um princípio para a acessão da mesma e o encontro dessa felicidade que, mesmo não sendo permanente, pode apresentar-se como mais permanente na nossa vida. 

Aquele que, ao buscar a felicidade, não oprime com violência outros seres que também desejam a felicidade, encontrará felicidade daí em diante.


[1] Violência

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