Comentário ao Capítulo XI do Dhammapada: a Velhice (Jaravaggo Ekadasamo)

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Muito mais do que ensinamentos sobre a velhice, as palavras de Buda deste capítulo do Dhammapada são um tratado sobre a compreensão do que é o real e do que é a ilusão da nossa existência, bem como os resultados obtidos na vida em consonância com aquele com que nos identificamos e fazemos as nossas escolhas.

Uma das imagens que Buda nos oferece, quase nos faz rir e simultaneamente chorar ao vermos como retrata os tempos que vivemos de valorização da diversão e do entretenimento:

“Porque rir, porque estar exaltado, quando tudo arde constantemente? Não deverias tu procurar a luz da sabedoria quando estás envolvido pela escuridão da ignorância?”

Pois nos momentos de obscuridade, de ignorância e desnorteio, em vez de procurarmos afincadamente a luz do entendimento, preferimos a fuga da diversão, rir, distrair, não pensar, não querer ver… Em euforia rimos e cantamos como “Neros” loucos a ver arder no fogo da ignorância os edifícios da existência que se reduzem a pó frente aos nossos olhos.

Na inconsciência da ignorância admiramos o perecível, identificando-nos com um corpo, com um ego cuja sua natureza é a de definhar, de desaparecer. Faz-nos falta olhar e entender, como na história de Buda, ainda quando jovem príncipe Siddhartha ao sair do seu palácio, as vicissitudes pelas quais passa o corpo: a doença, a velhice e a morte e cuja identificação com ele nos traz naturalmente o sofrimento. De tanto enfeitamos e bajulamos o nosso corpo, o nosso ego, como se de um rei se tratasse e que, de tanta lisonja e poder que lhe damos sobre a nossa vida, ele torna-se o nosso tirano.

Gautama Buddha em Padmasana. Creative Commons Attribution.

Como todos o sabemos, mesmo quando não o queremos ver, o nosso corpo tem como destino a decrepitude, que mais cedo ou mais tarde não pode responder impetuosamente aos apelos sensuais do mundo, o procuramos querer fazer brilhar através dos mais diversos adornos, disfarçar que estamos vivos através dele e esquecendo o caminho da verdade, como diz Buda: “Ao contrário, a verdade é imortal, pois acompanha aquele que é integro”, esta não necessita de qualquer adorno para realçar porque tem o seu brilho próprio e não decresce com os anos mas sim cresce e dá ao ser humano a única dignidade que nunca pode ser retirada.

“O homem de pouco conhecimento espiritual cresce como um touro; a sua carne aumenta, mas a sabedoria não.”

A falta de conhecimento e cultivo espiritual faz-nos perder o discernimento do que é importante e duradouro, desviando o nosso foco para o crescimento material, valorizando o ter e parecer em vez do ser. Quando Buda se refere à “carne que aumenta”, muito provavelmente não o refere apenas num sentido real, mas metafórico de um acumular no plano material, o que nos torna pesados e lentos na vida, pois todo o excesso torna-se um obstáculo à realização do Ser.

“Através de inúmeros nascimentos eu atravessei o ciclo do Samsara, procurando o carpinteiro (gahakaraka) deste tabernáculo, mas em vão. Realmente triste é a repetição cíclica dos nascimentos”

A alma humana vai vagueando através da roda do Samsara, a roda de renascimentos, que é impulsionada pelo desejo e dor gerados da ignorância até que possa descobrir o arquiteto (gahakaraka) que constroi o seu tabernáculo, o seu corpo, descobrir a causa da existência e das encarnações. Esse construtor não se encontra fora de nós, mas dentro de nós mesmos, ele é o Desejo ou Apego (tanha), uma força autocriada pelo nosso ego e pela ignorância limitadora da nossa mente que cria ilusão e desejo. A descoberta do construtor é a descoberta da causa do porquê de voltarmos ciclicamente a viver num novo tabernáculo, num novo corpo. Descobrir esse carpinteiro, construtor do nosso ego, é para Buda o que leva à erradicação do desejo, dessa força que impulsiona à ilusão dos prazeres e das dores, levando ao estado de Arhat, o de perfeita consciência fora do mundo de Maya (ilusão).

“Ó carpinteiro, eu vi-te; tu não construirás a casa outra vez. Todas as vigas estão quebradas; o pilar do meio está deitado abaixo. A mente (citta) chegou à dissolução (Nibbana), tendo atingido a extinção de todas as ambições (tanha).

As vigas desta casa auto-criada são as corrupções, ou kleshas, os estados mentais que obscurecem a mente e se manifestam em ações prejudiciais. Nas tradições budistas Mahayana e Theravada, os três kleshas são: Moha (ilusão, confusão), Raga (ganância, apego sensual) e Dvesha (aversão, ódio). Elas são identificadas como a raiz ou fonte de todos os outros kleshas como ansiedade, medo, raiva, ciúme, desejo, aflições, emoções destrutivas, emoções perturbadoras, emoções negativas, venenos mentais, etc. Na tradição Mahayana são referidos como os três venenos e na tradição Theravada como as três raízes que são causas de Taṇhā (desejo) e como tal a origem de Dukkha (sofrimento, dor, insatisfação), raízes da existência samsárica ou ciclo de renascimentos.

O pilar do meio que sustenta todas as outras vigas é o da ignorância (avijja), é a causa e raiz de todas as impurezas e imperfeições. A quebra desse mastro da ignorância pela sabedoria resulta na demolição completa de todas as outras vigas, os kleshas, que sustentam o tabernáculo indesejado para o ser interior, a sua prisão. Com a destruição das vigas, o carpinteiro ou ego fica privado dos meios para reconstruir a casa, desse modo o Ser alcançará o Incondicional, o Nirvana.

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