Alguns aspectos sobre o carro de guerra na Índia Antiga

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O cavalo e o carro de guerra são extremamente importantes na cultura e na literatura da Índia antiga. O culto aos Ashvins, os «cavaleiros» védicos, é a mais arcaica referência aos carros de guerra que conhecemos e, mais concretamente, a uma dupla de cavaleiros: um auriga e um soldado combatente. Aquilo que mais caracteriza a acção dos Ashvins é a sua velocidade, e isto para várias tarefas, como o tratar, o resgatar e até o transporte da noiva para o casamento. O sacrifício do cavalo, o ashvamedha, relativo à força solar e às delimitações do reino, vem atestar, igualmente, a importância arcaica dos cavalos e dos carros. O mais famoso texto da literatura indiana, a Bhagavadgita, descreve-nos o diálogo, precisamente, de uma dupla de soldados combatentes dentro de um mesmo carro, Krishna e Arjuna, onde se usam as suas partes como metáforas metafísicas, como é o caso da palavra yoga, «jugo». Já nos Vedas, em específico, o fabrico dos hinos era equiparado ao fabrico de um carro de guerra e a preparação ritual do soma comparada ao escovar de um cavalo, por exemplo. O carro de guerra é, definitivamente, o mais perceptível dos símbolos culturais ários e aquilo que mais define os Indo-Europeus. E, tal como decidiram o destino das civilizações antigas, também o fizeram entre os povos da Ásia do Sul, sendo imprescindíveis para a batalha e para a mobilidade destes povos, que, como se crê, eram invasores. Já no Rigveda, o carro é usado com vários sentidos metafóricos. Por exemplo, este torna-se no hino que viaja até aos deuses ou no sacrifício que invoca a presença dos deuses. Quando preparavam um ritual ou compunham um hino, os poetas tornavam-se construtores de carros, que eram usados em batalha, ou seja, em concursos de hinos, onde se avaliava a destreza, a velocidade e a capacidade de se chegar à meta, o que equivale a dizer: aos deuses. E, tal como os carros traziam o saque da batalha, ou o prémio da corrida, também os hinos traziam grandes riquezas dos deuses para os homens. O carro é também o veículo dos deuses, no qual eram vistos pelos homens e, através do qual, vinham até ao sacrifício pelos seus próprios caminhos. Existe, inclusivamente, um hino de carácter militar, onde os últimos versos são dirigidos ao tambor e ao carro de guerra, onde se usa o vocativo deva ratha, «ó deus carro!» (RV 6.47.26-31), o que atesta a sua importância divina. De entre os vários deuses que são associados ao carro, os Bhrigus, aqueles que obtiveram o fogo para a raça humana, são geralmente os seus constructores. E existem algumas outras duplas de condutores, como a de Indra e de Vayu. Indra é, aliás, o protótipo do soldado combatente e o melhor dos cocheiros (sthatri), o modelo que todos os soldados combatentes seguem no mundo. De forma mais concreta, o carro de guerra do Rigveda era chamado de ratha, cujo sentido primário deriva de «roda», do Indo-Europeu *hret-, «rodar», que aparece no latim como rota. Ou seja, aquilo que melhor define o carro de guerra é a sua mobilidade e a sua velocidade. De acordo com a sua descrição, estes carros de guerra tinham duas rodas, sobretudo raiadas, com eixo rotativo, ou fixo, nas extremidades da plataforma. O jugo (yoga) era parte integrante do carro de guerra e era o elemento que se apoiava sobre os cavalos que serviam como animais de tiro nos veículos. Este tem como antecessor as carroças, que eram traccionadas por outros equídeos e até bovinos. A barra, que ligava o jugo à plataforma do veículo, terminando em forma de cruz elevada, servia como espinha dorsal de todo o complexo de locomoção e era ladeada pelos animais de tracção, sendo as suas principais funções, naturalmente, permitir que o veículo se mantivesse erguido na sua vanguarda, bem como fazer com que o carro acompanhasse os equídeos quando estes estavam a fazer curvas para ambas as direcções. Eram, geralmente, postos ao jugo dois cavalos, ainda que sejam também referidos quatro ou, simbolicamente, três, cinco e sete. Estes cavalos eram posicionados lado a lado, por forma a proporcionarem uma maior força de tracção. Mas são, também, referidos carros de guerra puxados por burros, tal como na Suméria. A plataforma era fixada, num eixo feito de madeira ou metal, em cujas extremidades eram fixadas as rodas raiadas, com quatro (como as egípcias) a oito raios (como as homéricas).

Carruagem puxada por cavalos esculpida no mandapam do templo de Airavateswarar. Século 12 dC. Licença: uso não comercial.

Se nos Vedas o carro de guerra é comparado ao sacrifício, nas Upanishads, vamos encontrá-lo como sinónimo do corpo físico, o veículo e o local de combate da alma encarnada. A caixa, ou plataforma quadrada, representaria o aspecto mais denso do corpo ou da própria personalidade, aquilo que é arrastado e dirigido. Na Kathopanishad (3.3-9), lemos o seguinte:

«Conhece-te a ti mesmo (/ conhece o eu: atmanam) como o guerreiro, mas ao corpo (shariram) como o carro de guerra. Conhece a inteligência (buddhim) como o cocheiro e a mente (manah) como as rédeas. Dizem que os cavalos são os sentidos e os objectos dos sentidos os seus caminhos. “Aquele que jungiu a mente aos sentidos e ao eu, é quem usufrui”, dizem os sábios. Mas daquele que não compreende, com a mente sempre disjungida, os seus sentidos são descontrolados, como os maus cavalos de um cocheiro. Mas daquele que compreende, com a mente sempre jungida, os seus sentidos são controlados, como os bons cavalos de um cocheiro. Mas aquele que não compreende, que é negligente e sempre impuro, ele não vai por aquele caminho e alcança a transmigração. Mas aquele que compreende, que é atento e sempre puro, ele vai por aquele caminho e não volta a nascer. Mas aquele homem cuja mente tem as rédeas e o cocheiro a compreensão, ele vai até ao fim da estrada, o supremo caminho de Vishnu.»

Se quisermos usar este passo para ler a Bhagavadgita, podemos entender que Krishna é a inteligência, aquele que controla a mente e os sentidos. Arjuna, por sua vez, é o soldado combatente, aquele guerreiro dentro de nós que tem de combater, que tem de superar a dúvida e ser convicto no seu dever. Ambos se encontram dentro do carro, que é o corpo ou a personalidade. Sendo Krishna Deus, ou o nosso Eu Superior, mais facilmente compreendemos que é ele quem nos deve guiar. O corpo é puxado pelos sentidos, que percorrem os caminhos dos seus objectos, mas quem o decreta é este auriga divino. A nós, ao nosso sentimento de si, compete combater dentro da nossa plataforma.

O carro de guerra épico é, em essência, o mesmo que é descrito nos Vedas. A diferença passa por alguns carros de maiores proporções, com quatro cavalos atrelados e, por vezes, com quatro rodas, que teriam menos velocidade, mas que causariam um grande impacto sobre as linhas inimigas. Estes cavalos estavam protegidos com armadura e levavam, também, ornamentos. Aqui, os cavalos de guerra são descritos como obedientes, dóceis, velozes e resistentes, mas também sensíveis ao destino dos seus donos. Não nos deverá ser alheia a dificuldade, que teriam os soldados, em agrupar estes dois cavalos, quatro no caso de Arjuna, e da sua colocação sob o mesmo jugo, devido à necessária compatibilidade de altura, de peso, de temperamento e de género, para gerar a desejada força de projecção, facto que constitui uma fácil extrapolação para qualquer outro tipo de dificuldade ou de desafio. Se considerarmos os quatro cavalos brancos de Arjuna como os quatro veículos da personalidade, percebemos igualmente o desafio de os alinhar e de os tornar compatíveis para cumprirmos com o nosso dever quotidiano, já que é deles que depende a nossa mobilidade. Talvez nos seja, hoje, difícil de imaginar o impacto, inclusivamente sonoro, que tinham estes carros de guerra e o poder que exerciam sobre a nossa imaginação, mas o mesmo tipo de correspondência podemos fazer hoje com os nossos automóveis, aquilo que permite ao condutor fazer caminho, e tentar, a partir daí, alguma aproximação.

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