A Medicina Budista. Parte I

Pandava

O título deste artigo poderia levar à conclusão de que existe algum tipo de técnica ou conjunto de conhecimentos que nos permitisse incluir esta medicina entre as já conhecidas. No entanto, não existe tal tipo de medicina, pelo menos de uma maneira claramente individualizada, pois tratam-se de bases metafisicas e de uma forma de entender a medicina que pode ser aplicada a qualquer outra escola estabelecida.

O documento inaugural do qual parte esta conceção é “O Sutra do Buda da Medicina” resultado dos ensinamentos do próprio Gautama Sakyamuni, o Buda.

Bhaisajyaguru, Buda de la Medicina. Wikipedia Commons.

Ao longo dos séculos, este documento foi traduzido em tibetano e chinês e voltou a traduzir-se de novo para inglês e outros idiomas. Infelizmente, muitas destas traduções apresentam desvios sectários e foram difundidas no Ocidente sem o suficiente entendimento do seu conteúdo.

Frequentemente, alguns grupos tibetanos, budistas modernos ou pseudo-budistas, utilizaram o seu conteúdo de forma distorcida incitando o uso deste Sutra e o mantra que contém de forma supersticiosa.

Pode-se assinalar dois aspetos fundamentais na Medicina Budista:

– Moral-metafísico

– Magico-religioso

Estes dois aspetos são o resultado das conceções particulares do budismo Mahayana e tibetano que comparte os mesmos ensinamentos com o budismo Hinayana no moral, mas acrescentando a ele conceções esotéricas, elementos religiosos populares e, em algumas escolas, elementos tântricos procedentes da escola Vajra ou do Diamante.

Aspeto Moral-Metafísico

Para o budismo as causas fundamentais da doença são precisamente as mesmas que colocam em movimento a roda do Samsara: a cadeia de causas interdependentes ou “os 12 Nidanas”.

A Samsara, o perpétuo errar, refere-se a uma cadeia repetitiva de nascimento, morte e reencarnação, ideias que não são só budistas, mas que também se compartem com o hinduísmo, jainismo, a religião dos sikhs e a dos bons e, inclusive, no Ocidente, encontramos traços dessas crenças entre os antigos egípcios, gnósticos, no orfismo grego, platonismo e neoplatonismo e até existem vestígios nos evangelhos e em alguns textos hebreus.

Esta é, portanto, a primeira doença: a incessante roda de Samsara é a doença fundamental, a razão de todo o sofrimento e por isso a principal medicina e cura que todos necessitamos é a libertação desta roda samsárica.

Agora, sendo razoáveis, esta libertação não vai produzir-se de um dia para o outro, mas, o que sim é possível, é a moderação, o equilíbrio, a calma e serenidade que faz com que os nossos desejos se restrinjam progressivamente de uma maneira natural.

Roda do Samsara com as 12 nidanas no anel exterior. Wikimedia Commons

Para o conceito budista existem dois fins possíveis: um já mencionado, a libertação final, e outro que consiste em melhorar as nossas condições presentes e futuras, individuais e coletivas. O budismo não é apenas uma filosofia focada na renúncia do mundo e em afastar-se para seguir um caminho místico. Dentro do ensinamento budista não sectário é também uma aspiração importante o conseguir uma sociedade mais justa, mais igualitária e com menos sofrimentos e doenças.

Antes de prosseguir temos de ter muito claro que uma coisa é o Budismo (Budhism com “d”) ou seja, a milenar Religião da Sabedoria Atemporal, fonte de onde irradia a Luz Espiritual para o Mundo desde de que este existe, conceito ao qual qualquer um pode chegar por si mesmo e, outra coisa diferente, é o “Budismo de Buda” (Buddhism com dois “d”), ou seja, a reedição e adaptação dessa fonte original de sabedoria a uma época e a um determinado lugar e que em sua última “edição-adaptação” consistiu na doutrina exotérica ou “Doutrina do Olho” promulgada por Gautama Sakyamuni, o iluminado, o Buddha um dos muitos Budas que periodicamente veio ao mundo para renovar a mensagem.

No entanto, o que nunca foi promulgado abertamente é a doutrina esotérica ou “Doutrina do Coração”.

Há muitas escolas budistas que em muitos casos são ramos degenerados do tronco inicial, o próprio Dalai Lama que mudou critérios tradicionais acerca de muitas coisas, numa das sua entrevistas declara-se “marxista”. O budismo original, ao não fazer distinções de casta, sexo, posição social ou nacionalidade e ao promulgar uma filosofia religiosa de libertação, e não uma religião, aproxima-se nos seus postulados de um certo socialismo liberal ou utópico, se por isso temos de entender que a Justiça e a Igualdade devem ser valores primários, mas em nenhum caso propunha uma doutrina socialista marxista.

Todo o anterior dá-nos uma ideia de quão afastados do espírito original estão muitas doutrinas budistas do presente, que apesar de se apresentarem como vítimas perseguidas por regimes comunistas declaram-se marxistas ao mesmo tempo que se rodeiam de artistas de cinema e karatecas como Steven Seagel reconhecido como “tulku”, o lama reencarnado, os quais nomeia lamas avançados e os quais o Dalai Lama, nas suas reuniões multitudinárias, senta na primeira fila.

Mas como colocar em movimento a roda de samsara? Os textos budistas falam de um começo desconhecido ou inalcançável para o entendimento:

“Inconcebível é o começo deste Samsara; sem que se possa descobrir o começo primeiro dos seres, quem, obstruídos pela ignorância e apanhados pelo enseio se apressam e aceleram através desta ronda de renascimentos”

Se bem que o conceito de Samsara é o de uma roda, um círculo repetitivo que logicamente não tem começo nem fim pode-se, no entanto, PARA ESTE CICLO no qual estamos, para este novo giro da roda, assinalar as causas do seu movimento: a Ignorância, Avidya que como indica a palavra sânscrita é Não-Ver, não perceber, não se dar conta da realidade, do verdadeiro. E essa cegueira primeira leva-nos a tomar decisões erradas e executar atos contra a Lei. Como consequência, originam-se formações kármicas que nos levam através dessa roda, dando tropeções de engano em engano, até chegar ao ultimo elo que também é o começo do seguinte: envelhecimento, morte, preocupação, dor, pena e desespero.

A isto chama o budismo de 12 Nidanas, ou causas interdependentes, que não só colocam em movimento a roda de Samsara senão que, além disso, a mantêm de maneira indefinida.

Quem sabe nesta encarnação não tenham acontecido as coisas que querias, quem sabe nesta encarnação te tenham caluniado, ferido ou maltratado, mas considera, tu que podes ler isto, que tens educação suficiente para entender o que aqui se diz, que és afortunado porque milhões e milhões de seres humanos ainda se arrastam entre a dor física e a miséria, a guerra, o fome e as doenças.

Recorda pois que o Buda não fala apenas da libertação final, muito longe do nosso alcance por agora, mas também da melhoria da tua vida agora e no futuro, de ter, como agora tiveste, a oportunidade de renascer num ambiente que te permite estudar, aprender, dominar-te e aproximar-te à filosofia que te fará mais sábio e que te ajudará a ter uma vida melhor com penas e alegrias, mas suportável e serena. Mas além disso deves fazer participante, sob as formas possíveis, todos os seres humanos das bênçãos que tu tens.

Desde o ponto de vista do Buda, a doença, em qualquer um dos planos no qual se manifeste (físico, metafisico ou moral) só possui uma autêntica cura: a interrupção da cadeia de causas interdependentes, ou, pelo menos, a amortização e canalização destes 12 Nidanas até um fim positivo.

Neste aspeto Moral que estamos a tratar não há que esquecer um último ponto: pode ser que eu não seja capaz de mudar muitas coisas na minha vida neste momento,  mas algumas, e aquilo que sim posso fazer é, em vez de buscar a todo o custo a minha “salvação”, a minha “iluminação”, o meu o que seja, procurar nos meus atos a presença do “nós”, atuar inspirado pela eterna renuncia dos bodhisattvas, aqueles que se comprometeram a levar todos os seres humanos à libertação antes deles mesmos.

Esse longo caminho começa por ajudar a tornar real que todos os seres humanos tenham algo para comer, para se educar, para terem uma vida digna, para aprenderem a ler e, em definitivo, para saírem do estado semi-animal em que muitos vivem.

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