A Guerra nos Vedas

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“Agni fará de mim um ser atento e brilhante.”

Atharva Veda

Quando Agni aparece num navio de guerra, vestido como um militar, está em relação com Karttikeya, sendo o Pai dos Kshatriyas (a casta dos governantes militares). Por isso, os Kshatriyas recebem o nome de Agnibhu: os filhos do fogo, aqueles que afastam a neve e a escuridão.

J.A. Livraga

OS VEDAS E OS ARIANOS

Os Vedas são os textos sagrados mais importantes dos povos ários, indo-arianos ou indo-europeus, como prefiram chamar-lhes, ainda que o seu nome original seja ário. São a base de todo o desenvolvimento filosófico da cultura Ocidental europeia. Deles, beberam os Gregos e os Romanos, Zoroastro e Manes, o império persa e a religião celta…

Hoje, a palavra ariano está relacionada com Hitler e com a Alemanha dos princípios do séc. XX, enquanto sinónimo de supremacia racial “branca” ou caucasiana, em detrimento de outras raças ou etnias. Como tantas coisas mal utilizadas por toda a parte, sobretudo nos séculos XIX e XX, esta palavra, “ariano”, é uma delas. Estes dois últimos séculos são caracterizados por um excessivo materialismo: proeminência, em muitos casos absoluta, da matéria e da obtenção de bens materiais sobre qualquer outra forma de valores, em especial sobre os espirituais.

Em sânscrito, ariano significa “guerreiro nobre”, que nada tem que ver com a cor da pele, mas sim com a atitude mental perante a vida; os arianos são um conjunto de povos tão diversos quanto a Índia e a Europa, os Iranianos (“O país dos arianos”) os Hititas, os Incas e os Maias… e cujo primeiro foco civilizatório se desenvolveu na Índia, concretamente, na Cordilheira Pamir, irradiando daí para outras terras.

Helena P. Blavatsky, na sua Doutrina Secreta, disse que os arianos surgem depois do afundamento da Atlântida e que têm uma característica comum: a vida concebe-se como uma luta, um combate permanente do espírito sobre a matéria e, por sua vez, pela sobrevivência, dadas as condições tão precárias com que tiveram de progredir.

OS VEDAS

São muito mais do que literaturas sagradas, são a PALAVRA SAGRADA, a SABEDORIA DA VERDADE: uma concepção do mundo que proporciona um sentido enorme de espiritualidade. Como assinalava o grande sábio do passado séc. XX, Sri Ram, a espiritualidade nada tem que ver com que se reze de uma forma ou de outra, num templo ou noutro, pois a espiritualidade é uma atitude interior que cada qual irá alcançar por si mesmo e que terá reflexo no amor ao próximo e no amor à verdade.

Folhas samhita dos Vedas, fechadas entre 1500 e 1000 a.C. Licencia Creative Commons.

Diz o professor Jorge A. Livraga: “Os Vedas não são uma obra individual, também não são uma compilação de vários autores. Na verdade, os Vedas, são uma acumulação de dados, de ensinamentos, de argumentos filosóficos, compilados ao longo de milhares de anos por pessoas que, provavelmente, nunca se conheceram. O conjunto destes ensinamentos constituíram os Vedas.” Ensinados inicialmente de forma oral durante milhares de anos, diz-se que foram recompilados por um grande sábio, Vyasa, por volta de 3200 a.C.

De forma sintética, diremos que os Vedas são quatro: Rig Veda, Yajur Veda, Sama Veda e Atharva Veda, mas outra série de textos destacam-se como as Upanishads, comentários muito metafísicos e filosóficos, e os Épicos: escritos simbólicos e alegóricos que descrevem os poderes e os feitos dos Deuses, parecem ter sido compostos pela parte menos instruída do país, a que não sabia ler os Vedas. Os grandes Épicos são o Mahabharata (A Grande Guerra) e o Ramayana (A Epopeia de Rama).

Nos Vedas está a raiz de todas as religiões e mitos, e as Upanishads abarcam praticamente todo o saber filosófico humano. Não conhecemos deles a sua parte interna e mistérica, apenas a externa ou religiosa.

OS GUERREIROS KSHATRYAS NA ÉPOCA VÉDICA

Originalmente eram três as castas da Índia védica: Kshatryas, Vaishyas e Shudras. Os Brahmanes ainda não existiam e surgiram muito depois, quando os ensinamentos originais foram corrompidos: eles surgem, então, com a exclusividade da interpretação da lei Divina. Nascem assim os intermediários que têm A Verdade e que te dirão o que tens de fazer; e morre o trabalho e o esforço pessoal de vencer-se a si mesmo com o apoio das indicações do mestre!

Os kshatryas são, por vezes, reis e príncipes, governantes, sábios, médicos de almas e guerreiros. Na saga do Rei Artur, seria o Rei Artur e o mago Merlim unidos numa só pessoa. O professor Livraga recolhe do professor Cowel o seguinte texto: “Os grandes Mestres da Sabedoria Superior, ou seja, os entendidos no Gupta Vidya, e os brahmanes, são continuamente representados a dirigirem-se aos reis Kshatriyas para que se converterem em discípulos seus.”

Vishnu na sua encarnação como Parasurama, um Brahman (sacerdote) em batalha com Kartavirya, um rei Kshatriya, para demonstrar a supremacia dos brahmanes sobre os Kshatriyas (reis e guerreiros). Licença Creative Commons.

A minha visão pessoal sobre este tema: Na sua origem, as castas não eram hereditárias, mas sim adaptações ao nível da consciência de cada um. Baseavam-se no que se conhece por Três Gunas: Sattva; Rajas; e Tamas. Correspondendo Sattva ao equilíbrio harmónico (entre a mente e a ação), os Kshatryas, Rajas, ou domínio da atividade (mental), aos comerciantes, e Tamas, o predomínio da inércia ou passividade (somente atividade), aos agricultores e artesãos.

AGNIBHU, OS FILHOS DE AGNI, DEUS DO FOGO

Recolhido do Professor Livraga:

Na realidade, há apenas um só Deus, AGNI, o Deus do Fogo, o primeiro que aparece no Rig Veda. Todos os demais deuses e deusas serão diferentes expressões suas.

AGNI era, originalmente, uma divindade muito esotérica que representava o Fogo Primordial que colocou em marcha a obra de Parabrahman, quer isto dizer que reunia as condições básicas de luz, calor, eletricidade (ou seja, Kundalini, Prana e Fohat) e era o Senhor do Gupta Vidya, do Ensinamento Secreto. Posteriormente, este sentido esotérico foi-se perdendo e apareceram os outros deuses ou formas de Agni.

As formas de Agni e os Vedas

No céu, chama-se Sol (SURYA); na atmosfera e na energia que rodeia todo o espaço, chama-se VAYU (o Raio), na terra chama-se Fogo.

Também, em determinado caso, significa o Homem Celeste que se sacrifica pela Humanidade, desta forma significa: o calor, a vida, o alimento, a parte física e, por excelência, o espiritual.

Quando Agni aparece no navio de guerra, vestido de militar, relaciona-se com KARTTIKEYA, sendo o Pai dos Kshatriyas (a casta dos governantes-militares). Por isso, os Kshatriyas chamam-se Agnibhu: os Filhos do Fogo, aqueles que afastam a neve e a escuridão.

Uma descrição de Agni no Atharva Veda:

«No céu está o Sol, no ar está o raio, na terra está o fogo, mas Matarishvan tem a faculdade divina de se expandir dentro da mãe de todas as coisas (a Mãe do Mundo).

Agni é a vontade divina que governa e que nos guia, que sabe o significado da nossa cegueira, que conhece o objetivo da nossa aberração e que, do tortuoso jogo da falsidade cósmica que existe em nós, retira a manifestação progressiva da verdade cósmica!»

Agni fará de mim um ser atento e brilhante!»

Agni como INDRA

Deus do Firmamento, é o Rei de todos os Deuses siderais e construiu o Mundo, missão que foi destacada por outros Deuses. Ele carrega nas mãos um feixe de raios que agarra e atira com a mão direita.

Os comentários védicos dizem que ele teve de matar o demónio VRITRA (Deus que representa a seca física e espiritual).

Indra e Indrani védicos do século 12 no templo hindu Shaivism Hoysaleswara, artes Halebidu Karnataka Índia. Licencia Creative Commons.

Indra transforma-se em SURYA, o Sol, assumindo dois nomes diferentes, sendo um deles VISHNU (O que mata os inimigos dos Deuses). Rama e Krishna, personagens centrais do Ramayana e do Mahabarata, respectivamente, são os Avataras, ou reencarnações espirituais de Vishnu.

Agni como MITRA e VARUNA

O Rishi Vasushruta diz:

«Ó Agni, quando tu nasces és Varuna; quando estás perfeitamente iluminado, és Mitra.» MITRA é o Amor, a Luz e a Harmonia do Sol. Fundamentalmente, é SATTVA (a qualidade da Harmonia). VARUNA representa o Pralaya, a Noite Cósmica, durante a qual ele se mantém único, atento e vigilante, guardando o coração adormecido do Cosmos. Aparece como um guerreiro que vigia um coração de diamante que está adormecido nas trevas;é o homem, o Guardião da Verdade, a Consciência Interior.

O ESPÍRITO ATEMPORAL DO KSHATRYA

Kshatrya significa “aquele que alivia a dor dos que sofrem.” E o maior sofrimento, como já vimos, é o da nossa Alma imortal presa na inconsciência dos desejos.

  1. O ideal que move o Kshatrya é o CUMPRIMENTO DO DHARMA.

No início de tudo está Parabrahman, o Deus Uno, o senhor dos senhores, de cuja Mente surgirá o Universo como um Projecto de Evolução e não como um acto caprichoso. Ele está para além de todos os conhecidos e todas as almas descansam no seu seio. Para poder tomar consciência da sua própria imortalidade e da sua união essencial com o Todo (Parabrahman), as Almas terão de encarnar e passar pelas provas da existência física, da mesma forma com que, para sermos adultos, temos que passar pelo nascimento, pela infância e pela juventude.

O DHARMA é a Lei Universal que procede do Deus Uno. O Dharma é estar neste mundo, na base da própria natureza divina, ser o que realmente devemos ser: atuar como seres humanos, como gente e não como brutos, nem como coisas. Este é o grande ideal da Filosofia de todos os tempos: ser-se natural. Quem atua conforme o Dharma encontra a sua própria identidade e é uno com Parabrahman, pois a sua Alma imortal terá tomado a plena consciência dela mesma e vive-a! Sri Ram define-o como alcançar a verdade e plasmá-la, corporizá-la em nós mesmos: nós seriamos a verdade viva em todos os nossos atos, físicos, psicológicos e mentais, seguiríamos segundo a verdade e segundo o Dharma. Porque sabedoria é viver o Dharma: é VIVER A VERDADE.

No Atharva Veda, relaciona-se o processo de entrada do Espírito Puro (Purusha, em sânscrito) da divindade na matéria (Prakriti) para dar origem ao Cosmos, ou Universo -a união do espírito e da matéria – com o processo da encarnação das Almas humanas: para poder encarnar numa forma material, a nossa Alma tem que perder parte do seu brilho original. Já encarnados, temos de superar as provas da vida empregando a nossa luz espiritual e criando com ela “uma coroa de espinhos” (a dor como veículo de consciência, da nossa própria dor e da dor da Humanidade) para poder recuperar toda a nossa luz espiritual e nos elevarmos até Parabrahman.

Esse estado de recuperar o que realmente somos, toda a nossa luz espiritual, é o que conhecemos como “iniciação” ou “ser-se Sábio”. Nos Vedas diz-se que quem alcança este estado é “Aquele que conseguiu recuperar o brilho de todos os seus raios de luz”.

Como a força do Dharma (que é a expressão de Parabrahman) é o AMOR UNIVERSAL, Kshatrya significa “Aquele que alivia a dor daqueles que sofrem”. Se refletirmos sobre isto, veremos que para “aliviar a dor daqueles que sofrem” não chega o “querer” ou o terem-se boas intenções! Há que “poder” levá-lo à ação! Há que preparar-se, FORMAR-SE DE VERDADE!

Krishna e as Donzelas Kshatriya vão para Dvaraka: página de uma série do Bhagavata Purana

A COMPAIXÃO adquire grande importância para o Kshatrya. Na Katha Upanishad, o príncipe Nachiketa irrita o seu pai, o rei, e este envia-o com Yama, o Deus da morte; rapidamente o rei se arrepende, mas a ordem já estava dada. Quando Nachiketa chega ao reino de Yama, é impedido de entrar porque o Deus está ausente durante três dias; no seu regresso, o Deus Yama concede-lhe três desejos pela cortesia dos seus servidores. O primeiro desejo de Nachiketa é que perdoe o seu pai por este acto.

Assinalar que Yama é, de certa forma, o Dharma, pois a morte dá-nos a cada um o que nos corresponde segundo os méritos ou deméritos, sem se importar com a nossa condição social, raça, sexo ou crenças. No Mahabharata, o primogénito dos príncipes Pandavas é o filho de Yama, o filho do Dharma, e por sua vez Arjuna, o grande protagonista, é o deus Agni quem lhe entrega o arco mágico gandiva, cujo alvo nunca falha; Arjuna é também o discípulo predileto de Krishna.

O Amor como FIDELIDADE aparece nas Epopeias e na figura da Hanuman, o grande rei macaco que serve fielmente Rama na sua luta contra os demónios, a ponto de ter escrito com fogo e ouro a palavra RAMA no seu coração. E Arjuna, com a sua devoção a Krishna, quando lhe diz que a vida e o possuir do reino dos deuses nada valem se há que combater contra o seu Mestre.

  1. E assim chegamos ao segundo grande principio que move o Kshatrya: ATUAR POR DEVER: A RETA AÇÃO

Sri Ram define a Sabedoria como a Verdade em ação. Não é um presente, mas o fruto de uma conquista interior. O próprio Buda, que era Kshatrya, ensina que “a Libertação não se mendiga, toma-se de assalto como aquele que conquista uma fortaleza”.

Em várias Upanishads se fala do ser humano como o viajante de um carro que o há-de levar ao seu destino final: o despertar do seu Eu imortal e o reconhecimento do espírito imortal que mora no seio de todos os seres e que provém de Deus, Parabrahman, ou como preferirmos chamá-lo. Neste carro os cavalos são as paixões e a mente as rédeas; se soltas os cavalos, eles vão por onde querem, se estiverem muito presas, não avançam ou fazem-no mal e de uma forma rígida.

Alguns conselhos do Mahabharata para gerir bem as nossas rédeas (aparecem na Bhagavad Gita, texto central desta obra): Atua com a mente definida no Supremo e pensando no bem-estar da humanidade; a ação por dever (o Dharma) conduz diretamente ao Supremo (a Libertação); tenta fazer o melhor que sabes e começa com o que está à tua frente; faz a tua parte e não interferiras com a dos outros, porque o karma dos outros está cheio de perigos; se fazes com consciência o que se espera de ti não tardarão em dar-te coisas com mais responsabilidade; lança-te para o meio da batalha, combate o melhor que sabes e deixa o resultado final nas mãos do Supremo; a morte não existe e é uma ilusão porque a Alma imortal não nasce e não morre, sempre foi, é e será, numa palavra: É REAL.

CONCLUSÃO FINAL

O Kshatrya não luta por poder, nem riquezas, nem para ampliar o seu território, nem sequer por prazer. O Kshatrya luta pelo Dharma, para restabelecer a ordem natural das coisas.

O primeiro combate do Kchatrya é consigo mesmo, porque nós só podemos dar o que temos: se é harmonia, harmonia; se é força e segurança, força e segurança…

Um Kshatrya é um guerreiro que deve ir à procura da paz e não um mercenário ou um bruto.

É consciente do seu dever e aceita-o com liberdade. Não obedece cegamente, primeiro passa pela peneira da sua consciência, porque aceita a responsabilidade dos seus atos.

A única meta do Dharma é a Libertação da Humanidade da dor, das mediocridades e desejos: o retornar ao seio de Deus.

Da Isha Upanishad

Na verdade, a mente é a origem das ataduras e também a

fonte da libertação.

Encontrar-se atado às coisas deste mundo: essas são as ataduras.

Encontrar-se livre delas: isso é a libertação.”

O presente artigo tem como base o material escolástico do professor Jorge Ángel Livraga, da Escola de Filosofia Nova Acrópole, em especial SIMBOLOGIA TEOLÓGICA II, OS ELEMENTOS E RELIGIÕES I, ÍNDIA.  Também as Upanishads Katha, Isha e Maitri.

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